quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Aqui e agora

Todos as janelas do carro abertas espalham o vento pelo meu rosto. Bagunçando meu cabelo e correndo por minha pele. Escorregando e assoviando pelo vidro.
E o por do sol me diz que esse é um dia bom. Daqueles que não se joga fora; se aproveita, saboreia, agradece.
A consciencia do mesmo mundo de sempre está lá, mas não me afeta. Porque a vida aqui está bonita demais para eu querer explicações. E eu resolvi que posso deixar o restante para depois.
 Agora eu só consigo focalizar um violão sendo tocado dançando, com um som animado que eu não sabia que o violino poderia fazer e uma voz macia.
Então é confortável; macio e agressivo ao mesmo tempo. Uma paz divertida que toma conta de mim sem que alguém mais perceba. Junto com a velocidade do carro, os pensamentos correm desordenados na euforia da alegria momentânea que me invade. Lembranças de um tempo bom, e a certeza de que esse agora vai marcar também. E eu vou recordá-lo quando quiser imaginar um dia feliz. Vou lembrar da música embalante e do som da cachoeira. Do barulho bom do pneu do carro rolando sobre as pedras.
Talvez eu esteja naquela fase de quase dormência e não haja um raciocíneo lógico para essa sensação agrádavel dentro de mim, mas não me importo. Mesmo que as palavras possam parecer confusas a quem as lê. É só bom demais para descrever. Não tem uma forma sólida ou tocável. É distante, mas está bem aqui dentro de mim, exalando uma certeza desconhecida da felicidade, mesmo que não seja constante e não se perpetue. Ainda assim, me faz feliz aqui e agora.
Porque, pensando bem, eu não estou me importando o suficiente com o tempo que isso vai durar. Só quero minha cabeça bem leve no banco de trás do carro, enquanto meu dedos deslizam no vento, flutuando na forma de onda pela janela aberta. Só essa música que eu não sei cantar e o sorriso espontâneo que eu sinto estar preso em meus lábios. Só isso já está bom. Bom o bastante por hoje, e para sempre.

sábado, 25 de setembro de 2010

Suficiente; sem transbordar

O que há de errado com a garota? É o que todos se perguntam, mas nem ela mesma tem a resposta. Se coloca numa garoa fina sem medo de molhar os cabelos volumosos e permite o sol no rosto sabendo que ele derrete o lápis em seus olhos.
Há uma razão para que ninguém a veja com simpatia. É só que ela não faz parte da conhecida massa das meninas legais e bonitas. Não que seja feia, é só a falta de um cabelo loiro escorrido, um par de olhos claros e um sorriso falso de garota fácil. Porque ela gosta da verdade estampada, dita e ouvida. Não ri porque convém, mas porque sente vontade; mesmo que muitos afirmem fazer isso, ela realmente faz. Por isso, já se perguntaram porque ela não é simplesmente normal; porque não pode ser apenas amigável.
Mas ela é. Talvez do jeito dela, e da maneira como acha certa. Mas é. Ainda assim, não deixa de ser.
E, quem sabe, não haja mesmo motivos para esses olhares intrigados que zombam dela. Quem sabe, não haja nada de errado com a menina. Ela só é um pouco desastrada e desprovida de freios. Com uma risada feia e estridente, não encanta. Mas será que alguém já tentou questioná-la sobre o cheiro bom da chuva? Ou sobre a textura do queijo em sua lingua? Alguém já pensou em desvendar o mistério de todo esse medo em se aproximar dela? Ninguém tentou ouvir as respostas fabulosas que se formam na mente da menina.
No fundo, ela sabe que poderiam gostar de seu jeito, se tivessem a oportunidade de conhecê-lo. Mas não entende a dificuldade em soltar as palavras quando a vêem. Não morde, não acha ruim. Gosta, até. Das novas pessoas. E da simplicidade disso tudo.
Pode ser que a crítica a afaste do restante do mundo, mas não é maldade. É só um dos muitos ângulos a se observar. E pode ter certeza que ela percebe todos. Mesmo que só comente alguns.
Qual é a maldade com que a vestem? Ninguém percebe que, por trás do rosto pouco receptível, só há vontade de risos reais? Ela quer que alguém sorria um pouco ao olhá-la nos olhos, só por sorrir, como quem diz 'Bom dia'. E é tão dificil. As vezes, cansa ver tantas caras fechadas. Cansa que ninguém a veja como é, e goste do que vê.
Então porque não vêem nem as estrelas que a seguem? Talvez não seja grande coisa mas, ainda assim, é luz. Não treva, como pensam. E agora que ela está descobrindo isso, quer que os outros ao redor descubram também, mesmo que ninguém pareça disposto.
Pode ser que seja tolice dela, mas é só que demorou para chegar até aqui. Demorou para ela entender que poderia ser estrela também. Não as brancas bonitas mas, quem sabe, as amarelas. Talvez, não seja a guia também, mas alguém para quem se leva flores sem precisar; sem exigir. Pode ser que não sejam rosas, mesmo que haja vontade delas. Tulipas ou copos de leite. Porque não há exclusividades aparentes nela. Sem extravagancias ou especialidades. Sem acréscimos. E as caras amarradas para ela confirmam isso.
Mas sabe sorrir; sim, ela sabe. Mesmo que só o faça quando sente vontade. E isso deveria bastar. Porque a menina sabe também que só é bom o bastante quando é de verdade, mesmo que só ela pense assim. Então, quem sabe, baste também que seja amarela. Que não seja tulipa e que faça igual a tantas outras no mundo.
Pelo visto, basta que ela seja ela. Mesmo que isso implique em não sair da média, do morno. Mesmo que isso não a agrade. É suficiente e, por isso mesmo, não há nada de errado; nada excessivo.
Apenas basta, mesmo que não baste para o resto do mundo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sem paciência

Olhando ao redor, eu vejo tantos olhares superiores que quase esqueço meu tamanho real. Tenho vontade de lhes dizer que não há graça nisso. Não há particularidade nenhuma no modo como agem. Não é mistério, meus caros. Nem charme.
É só o achar que estão arrasando. A auto descrição pouco diz sobre a própria pessoa, isso é, quando diz alguma coisa. Admitam, não há absolutamente nada de extraordinário no modo como andam ou vestem-se.
Eu tenho vontade de gritar para que me ouçam. Dizer que não se iludam com vocês mesmos e que parem de descrever o que queriam ser, quando sabem que ningém é capaz de se descrever com exatidão.
Não pensem que são misteriosos e que isso é charmoso. Ninguém é tão misterioso quanto pensa, e charme é saber cativar só com o sorriso, sem precisar do batom, ou com o olhar, sem ter que usar quilos de delineador. Charme é a beleza implícita, sem ter que simplesmente tirar a blusa.
E mistério, oras. Não é o mistério que seduz, que atrai. Porque não há quem goste de um caso arquivado; não solucionado.
Só há o brilho; aquele que exala sem precisar de fragrância; que brilha sem usar purpurina.
No final das contas, temos apenas o dissernimento. Queremos entender todos a nossa volta, e não queremos ser compreendidos. Como se fosse bonito ou divertido ser o desconhecido. Talvez seja apenas uma forma de proteção, mas não acredito que outros vêem dessa forma, mesmo sendo a mais sensata. Porque, na realidade, quanto mais vocês se exibem, mais querem se proteger. Quanto mais palavras bonitas usam no orkut, menos se identificam com elas. Porque o propósito disso é apenas parecer bom o bastante e não apresentar o que, na verdade, é o essencial. E isso não é vergonha. Não é vergonha querer ser aceito nessa sociedade hipócrita, nem é surpresa o fato de algumas pessoas quererem ser e aparentar o que não são.
É só que.. me irrita.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Pretérito Imperfeito

É só que, no fundo, eu sei que você nem lembra mais que um dia quis alguma coisa comigo ou que um dia eu fui para você mais que um simples rosto em meio a tantos outros. Lá dentro, eu sei que você nunca nem imaginou um algo mais; sei que não havia expectativas da sua parte e que tudo não passava de mera faísca só para tornar o dia menos tedioso.
Eu sei que você achava que eu também não queria nada, porque eu mesma te fiz pensar isso. Mas, sozinha com meu travesseiro, eu continuo esperando que você perceba que não sou tão durona quanto te fiz acreditar. Fico esperando que você note o quanto eu estava mesmo pensando em um final feliz e note o quanto eu queria que você quisesse isso também.
Na verdade, eu nem mesmo sei porque nunca te disse não nem sim. Não sei também porque te deixei esperar tanto. Agora vejo que tanto faz porque eu realmente passei esse tempo todo acreditando que você esperava por mim também, por um dia em que cansaríamos desse esconde-esconde e nos levaríamos a sério. Mas para você, isso nunca foi uma brincadeira, isso nunca nem existiu. Para você, não havia 'isso' nenhum. Era só seu passa tempo ficar tentando me conquistar. Era apenas algo divertido de se fazer.
Infelizmente, eu nunca te deixei saber que seus truques deram certo. E agora sou eu que percebo que levar isso a diante nunca esteve entre seus planos. E o pior é que nem mesmo te acusar por isso, eu posso. Porque, vai ver, a confusão fui eu quem fiz. Você sempre deixou claro suas intenções, então eu sei que fui eu a culpada; a boba que acreditou nas suas palavras fáceis quando sabia que não deveria. Não posso te condenar já que eu mesma fingia saber que era tudo mera gozação. A culpada sou eu sim; eu e esse meu orgulho; esse meu medo de abrir a guarda e achar que, se o fizer, acabarei decepcionada de novo.
Pensando só em mim foi que eu esqueci de pensar na hipótese de você cansar de me esperar. Esqueci que você não estaria ali, dispoível para sempre. E eu sei que foi você que saiu aparentemente perdendo na época mas saiba que, na realidade, a perdedora sempre fui eu.
Hoje eu tento me convencer que você não vai voltar, já que nunca nem veio, mesmo eu continuando a te esperar. Eu continuo a fingir que você vai se dar conta de que também pensa assim, mesmo tendo plena certeza que eu nem passo mais pela sua cabeça.
Eu sei que você tem outra para ocupar seus pensamentos agora e vendo-a tão refletida em seus olhos, eu me pergunto se você gosta mesmo dela e se gostava mesmo de mim antes. Me pergunto se você usa a mesma mania de brincar que usava comigo. Os mesmos dedos justos que se enrolavam em minha mão, são também justos na mão dela? Talvez ela seja mais magra e mais legal. Mas o abraço apertado nosso é o mesmo quando você está com ela?
Logico, você não deve ficar irritado da mesma forma que ficava comigo porque ela não deve ser tão chata e esnobe com você quanto eu era. Porem, as conversas são tão dinâmicas quanto as nossas eram?
O cabelo dela escorrega e entrelaça tão bem nas suas mãos quanto o meu? Você também brinca que a ama como fazia comigo anos atrás?
Eu sei que são perguntas bobas com respostas óbvias e sei que, no final das contas, ela te oferece mesmo mais do que eu oferecia. Ela te faz feliz de verdade, como eu não fazia por insegurança. Ela é engraçada e bonita, e tem um papo legal. Talvez seja diferença demais para eu comparar. Provavelmente eu perco feio para a nova menina. É só que eu não me acostumei com isso ainda. Não me acostumei com o fato de vocês dois terem mais a ver do que eu e você.
Então, antes de concordar com tudo o que eu disse, só me responda: Ela é a mulher que Picasso disse ser a ideal? Aquela que quando você olha, vê um anjo e quando está nos seus braços, provoca tentações que só demônios podem provocar? Ela é mesmo tudo isso ou só uma faísca de um fogo de lareira?
Será? Será mesmo que ela é a resposta para todas as suas perguntas, enquanto eu era apenas mais uma pergunta para você? Ela é a garota por quem você procurava, ou é a que te encontrou no meio do caminho?
Pensando melhor, tanto faz. Porque nada disso vai mudar, mesmo que eu não consiga perder o fiozinho de esperança quando você me olha. Mas fui eu quem quis que você fizesse parte do passado e, por isso, me forço a entender que você não está ao meu alcance, bem como nunca esteve.
Não está ao meu alcance como eu pensava que estava antes, como eu pensei que estaria sempre e assim como nunca vai estar.
Pois é, entre os meus dois pretéritos que você poderia fazer parte, Deus-sabe-o-porquê, eu escolhi te colocar no imperfeito, e talvez esse tenha sido o erro.



"Só falta te querer, te ganhar e te perder. Falta eu acordar, ser gente grande para poder chorar."

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Do fogo ao gelo

E então elas voltaram. Quentes, úmidas e pegajosas. Não posso reclamar, visto que cheguei a desejar que voltassem. Implorei que se fizessem presentes de novo, e agora me arrependo amargamente porque elas voltaram com tamanha intensidade que me impediram de respirar em intervalos de tempo. Intervalo de uma para outra. Até que todas juntas resolveram apostar um drift, correndo sem parar pelas curvas sinuosas das minha bochechas. Sim, as lágrimas estão de volta.
A conhecida dor esmagadora pressionou meu peito e minhas mãos trêmulas envolveram-me apertadas, tentando segurar um prédio prestes a desabar, porém como se ninassem um bebê. As chamas dançavam pelo meu rosto já inchado e vermelho; marcado pelo sentimento estranhamente dolorido e culpado. Os soluços saltavam por entre meus lábios sem a minha permissão. Sufocavam-me e emitiam sons guturais, roucos e tristes. Era incontrolável. Eu queria que parasse, queria poder cessar as lágrimas e essa dor esmagadora, mas não conseguia. Meu coração batia acelerado e descompassado, feito uma bomba relógio. E era crescente; ia aumentando conforme o tempo passava. Parecia que eu estava prestes a explodir. Tranquei minha boca, obrigando-a a calar-se; aquietar-se. Eu tinha plena consciencia do grito preso em minha garganta, esperando o momento oportuno para irromper. A força que eu fazia para colocar aquilo para fora sem deixar transparecer era tanta que, depois de horas, me deixou cansada. Joelhos exaustos foram cedendo vagarosamente até o piso frio e duro. Não era mais explosão; agora eu havia implodido. Involuntariamente meu rosto relaxou e suavizou, mandando embora as expressões de insanidade. Consegui, enfim, respirar. Puxei o ar como uma pessoa que estivesse afogando faria; ofegante. A água quente e salgada que escorria pela borda de meu rosto cessou, limitando-se apenas a permanecer nos meus olhos, sem transbordar. Eu agradeci silenciosamente.
Eu sabia que seria assim, mas havia me esquecido da sensação exata que era chorar. Já fazia algum tempo desde que eu havia decidido nunca mais deixar isso acontecer. E eu cumpri a promessa que fiz a mim mesma durante um longo período de tempo. Nenhuma gota havia caído de meus olhos, até agora. Embora isso não me agradasse, fiquei aliviada. Deixe-me escorregar pela parede até conseguir sentir o mesmo piso frio e duro, só que desta vez sob meus cabelos. Olhei em volta e vi o mesmo cenário; o mesmo palco de tantas outras atuações dramáticas particulares. Me vi novamente no mesmo papel que sempre fiz.
Eu estava lá, trancafiada no banheiro de novo, escondendo-me da coragem. Permitindo a entrada apenas da fraqueza e de ninguém mais. Só que meu tempo estava se esgotando. As vozes lá embaixo chamavam freneticamente. Chamavam por meus afazeres ainda não feitos, e por minhas tarefas não cumpridas; nunca por mim. Não foi diferente das outras vezes e nem mesmo sei porque eu esperava que fosse.
Levantei e tentei manter minha respiração o mais estável possível. Estranhei a maneira como me sentia rígida; como se pudesse fuzilar alguém apenas com o olhar. Geralmente a mágoa superava a raiva, mas dessa vez eu sabia que havia mais gritos e palavrões dentro de mim do que água salgada. Talvez eu estivesse secando, finalmente; desidratando-me para poder tapar a fonte inesgotável. Talvz fosse só casualidade.
Dei de ombros; eu não me importava o suficiente com isso para me preocupar.
Enxuguei as lágrimas traiçoeiras e me virei para o espelho, verificando o tamaho do estrago. Assustei. Quem era essa que me encarava friamente do outro lado do vidro? Que olhos sólidos e impiedosos eram esses que me esquadrinhavam? Aquilo não era eu. Ou era? E se fosse a nova versão de mim, aquela que eu sempre tive medo que acabasse por ser predominante? Eu sabia que um dia isso aconteceria, mas ainda assim estranhei. Porque, na realidade, nada ao meu redor mudou; a situação permanece a mesma. A transformação ocorreu do lado de dentro, embora tenha refletido por fora. Analisei-me com cuidado e pude sentir a mudança vindo de dentro para fora, envolvendo-me como uma casca sólida e inquebrável; assenti, era assim que era para ser. Senti o peso dessa decisão sendo tomada entendendo que, infelizmente, não havia opção, visto que meu coração já estava em pedaços pequeninos demais para se partir novamente.
Então eu era inabalável; inatingível. A menina no espelho não tinha mais o conhecido sorriso frouxo, nem era dona dos olhos castanhos líquidos, doces e permeáveis. A expressão presente no novo rosto era lívida. Calma; porém com um aviso invisível, mas notável: Atenção! Perigo.
Ela ainda era ela; e elas ainda eram eu, mas não havia ternura, nem inocência. Elas agora eram mais eu, do que eu havia sido alguém um dia. Aceitei isso com um riso malicioso no rosto; eu não era mais quebrável, rasgável e nem descartável. Não havia mais fogo em mim. Eu era gelo; puro e sólido.
As mãos, desta vez firmes, giraram a chave pela fechadura da porta até que ela se abrisse por inteiro. Abri os novos olhos e me deparei com a verdade, com a coragem e com a realidade. Aceitei também e caminhei determinada porta a fora, deixando no chão do mesmo banheiro aquela garota que entrou a algumas horas atrás chorando. A garota frágil, sensível e boba; cheia de dúvidas e incertezas; a garota magoável demais. Deixei-a lá, com sua vida morna e seu all star desamarrado. Porque, no final das contas, eu desconfiava que seria assim. Ninguém consegue continuar batendo na mesma tecla quando essa tecla já está inativa a muito tempo. Não há mais coração suficiente para suportar tudo outra vez.
Então, como um ultimo recurso de auto proteção, eu decido não deixar-me mais exposta a esse tipo de ataque. Decido não deixar mais que água amargas apaguem o fogo vibrante dentro de mim e, por isso, restou-me o gelo; o qual eu aceito de bom grado e agradeço. O mesmo gelo que aparenta ser refrescante mas que, se tocado, queima e fere.
Não mais o fogo; apagável, maleável, manuseavel. Nem as lágrimas que, por algum motivo, eu tinha certeza que não voltariam por nada; por ninguém.
Não mais o sensível. Nem o molhado.
Agora, só o que restou foram os olhos secos e o bloco firme e fixo em volta de um orgão fragmentado, porém não mais destrutível.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Meio campo

Você, aquele do tipo engraçadinho, galinha e pentelho; que dava uma vida para não perder a piada; uma vida para não perder o jogo. Eu, com minhas músicas alternativas e risos incontidos; eu, que permanecia fria e intocável, fazendo questão de me garantir no primeiro lugar, orgulho intacto, cálculo perfeito. Os dois mal acostumados, com essa mania incessante de querer ganhar.
Até que nos esbarramos numa esquina qualquer, como dois estranhos que estranhamente se gostam. Mas éramos durões demais para nos deixar cair um pelo outro, ou talvez para admitir isso. E então começaram as trapaças.
Você pegava minha mão escondido, longe dos olhares, e eu sorria para você sem que percebessem. Uma piscada aqui, e um riso disfarçado ali.
Suas mãos percorrendo meu cabelo e reclamando pela falta da minha. Eu sempre insistindo em continuar essa historinha de chove não molha, e você querendo partir para os finalmentes. Eu te achando engraçado e você rindo da minha raiva. Você fazendo juras de amor e eu te mandando parar de mentir. Eu, por algum motivo desconhecido, nunca dizendo não para você. Deixando tudo na base da possibilidade.
Você tentando incansavelmente me ganhar com seu sorriso malandro, e eu quase não resistindo.
Brigávamos todos os dias, e se tivessemos um casa, nós a explodiríamos. Mas nem sequer tinhamos algo estável, nem mesmo tínhamos algo. Discutiamos feito um casal, eu sempre na defesa e você constantemente no ataque. Até que nos encontramos no meio campo. Descobrimos nossas mesmas besteiras. Descobrimos que éramos diferentes e nada parecidos, mas tão bons juntos.
Mesmo minhas amigas até hoje dizendo que você não presta, e os seus amigos te mandando constantemente 'dar um jeito nisso'. Você sabe tanto quanto eu como nós éramos bons juntos.
Você sempre com seus fieis escudeiros e eu com minhas parceiras de crime. Olhares trocados e destrocados sem que alguém mais notasse. Mãos dadas escondidas e sempre a sua dúvida contra a minha. Eu lembro das suas tantas tentativas e das minhas tantas negações. Você levando a sério até certo ponto, e eu disfarçando para descobrir que ponto era esse.
Mas a graça estava em como nós jogávamos um com o outro. Na nossa eterna mania de querer ser melhor. E ninguém entendia isso. Essa nossa necessidade orgulhosa de vencer.
O primeiro olhar que eu procurava quando chegava era o seu, e você sempre estava sentado lá no seu lugar perto de mim, me esperando com um sorriso presunçoso; sabendo que eu nunca resistia a tentação, bem como você também não.
Por fim, você se cansou desse beco sem saída e eu enjoei desse caso sem solução. Mas eu queria algo diferente do que você me supôs. Você queria apenas vencer o jogo, e eu queria um bônus por te deixar ganhar. Tão orgulhosos e tão covardes. Sempre brigando por algo que nem chegou a começar. Um prêmio que nem chegamos a disputar.
E, depois de anos, ainda esbarramos nos mesmos corredores e ainda nos olhamos com um brilho meio apagado no olhar. Com o brilho escondido de uma possibilidade improvável. Eu com minhas atuais descobertas e você com seus problemas mal resolvidos. Seus amigos sempre te jogando contra um 'nós', e minhas amigas sempre dizendo o quanto você é errado.
Seus olhos caídos e ansiosos ainda roubando uma olhada minha disfarçadamente enquanto eu ainda te fito pelo canto do olho. Porque sozinhos sabemos que poderia ter dado certo se não complicássemos tanto a equação; teríamos virado alguma coisa se não tivéssemos transformado em problema o que era para ser a solução. Podíamos ter nos apaixonado, como pessoas normais fazem. Queríamos ter nos apaixonado. Porque, no final das contas, você sabe que minha vida é um saco sem você e seus truques baratos; da mesmo foma como eu tenho certeza que o seu dia é sem graça sem minhas piadas contadas errado. Parados aqui no corredor e analisando os fatos, descobrimos o quanto poderíamos ser se não fosse o medo de tentarmos. Se não fosse o medo de colocar as palavras para fora, em vez de permitir o pairar desse silêncio desconfortável.
E agora, retomando meu caminhar na direção contrária da sua e olhando furtivamente essa sua forma gingada de andar, só consigo ver o quanto estava enganada em pensar que isso tudo terminaria com um final feliz. E o quanto você estava errado em suas previsões de um futuro que eu queria e você gostava. Então aqui estamos nós, até hoje, tentando sair dessa bifurcação que nos leva a caminhos opostos e encontrar uma estrada em que possamos seguir juntos, nem tão perto para brigarmos e nem tão longe para sentirmos falta um do outro.
Até hoje, competindo pelo primeiro lugar, você com sua mania de insistir no 0x0 e eu brigando por 1x1. Você exigindo um sim ou um não. E eu sempre te propondo um se.
Ambos irredutíveis; Ambos, como sempre, empatados no meio campo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cicatrizada

Eu ainda sinto aqueles olhos em mim. Aqueles muitos pares de olhos com expressões curiosas e até mesmo esperançosas. Como se me perguntassem porque eu ainda estou calma. Como se esperassem que eu fosse enlouquecer a qualquer momento. Um bomba prestes a explodir.
Antes eu não entendia, e ficava com raiva dessas pessoas que me encaravam. Mas agora eu percebo que, em dadas ocasiões, isso é mais frequente. Talvez agora eu seja vista meio de lado, olhada pela janela daquela vizinha fofoqueira. Quase consigo ouvir as mães cautelosas sussurando para que seus filhos não se aproximem da garota, daquela que está aparentemente perdida no mundo, sem rumo certo. Em geral, elas disfarçam e desviam o olhar, talvez tenham medo de mim.
Não me lembro de ter sido alguma vez muito diferente do que é agora, porque isso tudo começou cedo demais para que eu me recordasse dos tempos normais. Ainda assim, ressalto que piorou desde aquele fatídico dia. Dali em diante, os olhos sempre me acompanharam. Sorrateiros, intrigados e escondidos atrás de uma camada de falsidades e palavras solidárias de mentira. Na verdade, ninguém nunca se importou com o fato. Não como nós daqui, não como eu. O que esses olhares procuram é fogo para poder fofocar. Procuram um sinal de medo em mim, alguma prova de um possível distúrbio. Sinto decepcionar, mas ainda não cheguei a esse ponto. Ou quem sabe, eu tenha passado direto por ele; esquecido de freiar nessa minha fuga descontrolada de pupilas dilatadas.
Agora, porém, eu entendo. Sei que não passa de desafios. Esses olhos apostam comigo, me provocam. Eles querem que eu perca o controle, querem me ver insana, rebelde e drogada, só para poder ter o que comentar.  Poder dizer uns aos outros: "É, coitada. Essa não teve sorte na vida."
Porque eu sei que o fato de eu estar seguindo em frente com a minha cabeça bem levantada, incomoda; intriga e assusta. Eu sei que, no meu lugar, muitos perderiam a razão, a sanidade; perderiam a cabeça. E sei que é por isso que essas pupilas ainda esperam por mim; esperam por um eu que não serei.
Esses meus olhos vermelhos só provam que foi ótimo enquanto durou. Provam que foi tão bom, tão maravilhoso e tão indescritível, que acabou. Porque sabemos que tudo que é bom demais dura pouco.
Esse meu soluço é apenas por saber que a saudade vai doer mais do que fogo queimando na pele, não agora; mas vai doer mais, bem mais, quando eu chegar em casa e encontrá-la vazia. Eu choro sim, da mesma forma como chorei das outras vezes, com a mesma intensidade. Mas eu faço isso aqui e agora, faço enquanto posso e enquanto devo. Porque amanhã a vida continua, e se eu não sofrer tudo o que tiver para sofrer hoje, nesse momento, eu vou guardar isso dentro de mim; vou carregar essa mágoa, esse peso. Então, ao contrário do que pensam, essa é a forma como eu me mantenho sã.
Eu não vou sair gritando e enchendo a cara. Não vou causar mais problemas, quando já temos o suficiente para uma vida. Entendam: eu não vou pirar.
A Brenda, aquela das piadas mal formuladas e da risada descontrolada, continua aqui. A diferença é que eu aprendi a crescer, porque não se cresce apenas assim, crescendo. É preciso aprender a amadurecer, e eu aprendi sim...da pior forma, mas aprendi. Eu convivi com tantas perdas que acabei por simplesmente aceitá-las e me conformar com o presente. Aprendi a parar de agarrar o passado; ele foi tudo o que poderia ter sido, mas me trouxe até aqui e me mandou assumir o controle, sozinha. E é isso que estou fazendo.
Então, parem com essas expressões de frustração, de piedade e de surpresa. Parem com isso de achar que eu estou sendo muito passiva, parecendo muito conformada. Eu sei o que acontece dentro mim, e não preciso que me digam o que fazer. Sei dos meus conflitos internos, e das minhas crises. Mas entendam de uma vez por todas: Eu não vou explodir.
Não sou uma bomba relógio. E sei muito bem o caminho para o qual estou indo. Não estou perdida, não estou sem rumo. Eu sei quem eu sou, e sei que o mundo lá fora não pára para que eu conserte o que foi quebrado. Então aceitem que, por mais que tenha me machucado, não me matou. E não vai me matar. Tratem de parar com essa mania de psicólogo. Eu não preciso de ninguém para cuidar dos meus problemas; eu mesma os resolvo. Parem com esse jeito de achar que há algo errado e que, mais hora menos hora, isso vai acabar por estourar feito um balão e vocês vão apenas dizer presunçosos: "Eu sabia que isso iria acontecer."
Não há absolutamente nada errado aqui. E eu não tenho que provar isso a ninguém. Basta eu saber que a saudade presente em mim é só para me lembrar do quão feliz eu fui, e para me ensinar o quanto eu ainda posso ser. As minhas perdas, lágrimas e feridas serviram apenas para um aprendizado; para um plano maior do que eu podia ver na época e, por isso, eu as guardo dentro de mim; cada memória e cada lembrança. Sim, as cicatrizes estão aqui dentro ainda, mas como o próprio nome diz, elas estão cicatrizadas.
Então desculpe, mas não adianta esperar por mim com uma camisa de força nas mãos.
Guarde-a  para quando eu der a volta por cima, porque vocês provavelmente vão precisar quando virem que a garota que vocês diziam estar perdida, está vivendo a vida dela; satisfeita e de queixo erguido.