sábado, 7 de agosto de 2010

Insuficiente

Ele segurava minha mão fortemente contra a sua, e isso só piorava a situação. Tentei falar a primeira vez e engasguei. Tentei de novo e as palavras saíram vomitadas, cuspidas e erradas. Analisei com cuidado suas possíveis reações, antes de forçar uma frase decente boca afora, algo que parecesse com palavras e não com sussurros guturais.
- Eu quero terminar. -  Fracassei quanto a voz, mas dessa vez ele entendeu.
Não sei dizer bem qual foi a emoção que passou por seu rosto, porque foram várias. Primeiro ele sorriu como quem não entende, depois ficou pensativo e enfim me encarou com olhos arregalados que eu nunca desejei ver em seu rosto, agora, tão desnorteado. A voz saiu atropelada, molhada, empurrada ribanceira abaixo como uma enxurrada.
- Mas, porque você não quer mais? O que eu fiz de errado? Sei lá, parecia que estava tudo indo bem e de repente você me vem com essa de querer terminar. O que aconteceu?
Parei para pensar também. Ah meu menino, como eu queria te dizer que o que aconteceu foi o amor. Como eu queria poder explicar que tudo aquilo que não eu não deveria fazer, eu fiz: permiti que você se apaixonasse por mim também. E como eu quebrei minhas promessas secretas de não me deixar levar por seus encantos. Eu entendo que talvez você também vá sofrer um pouco, mas o único motivo para eu seguir com isso é só que eu sei que será melhor. Eu sei que tenho que te deixar seguir com sua vida sem a interferência desse meu caminho sinuoso e sem placas. Isso te faz mal também, e me mata mais a cada dia. Por que eu tive que me apaixonar por você? E te envolver nesse meu mundo desastrado e problemático? E como eu faço agora para te tirar dessa confusão sem te machucar ainda mais?
Entretida em meus devaneios malucos, mal percebi que seus olhos vacilavam. Frustração. Eu conhecia esse sentimento. Ele queria uma explicação, mas minha garganta não se manifestava.
- Você não me ama mais. -
Era uma afirmação. Meu coração saltou em protesto contra essa blasfêmia e eu gemi derrotada.
- É isso não é? -
E como explicar que não era nada disso e que a única razão para eu deixá-lo era exatamente o amor? Ele não entenderia de outra forma. Ele é bom demais para mim, eu sei, e por isso mesmo que ele jamais iria me deixar afundar sozinha. Mas já era ruim o bastante afundar, e leva-lo comigo? Não, isso era cruel demais. Eu não podia fazer isso com ele, logo ele. E não ama-lo? Como poderia pensar algo como isso? Eu amava cada fibra de seu corpo com cada poro do meu. Eu poderia passar o resto da vida apenas escutando a forma sem ritmo como seu coração bate ou sentindo seu perfume macio. Poderia passar anos bem quieta só para ouvir sua voz rouca, de madeira úmida. Não ama-lo? Eu seria capaz de criar asas e voar se disso dependesse a vida dele. Eu o conhecia desde seu primeiro fio de cabelo até a ultima unha de seus dedos. Sabia seus gostos e desgostos. Cada olhar e cada sorriso, apenas eu poderia ver o que havia por trás. Eu seria capaz de reconhecê-lo em meio a uma chuva de pessoas, cheiros e sabores. E, no fundo, ele sabia disso tanto quanto eu.
Eu não podia ser dele pela metade, agora que a outra parte de mim havia morrido, quando ele era meu por inteiro. Por isso, eu suportaria a distancia entre nós. Eu suportaria porque sabia que alguém lá fora o faria feliz de um jeito que eu não posso. E era exatamente o que eu estava tentando fazer, embora meus orgãos se remoessem manifestando-se de forma dolorosa dentro de mim. Respirei fundo e juntei a pouca dignidade que ainda me restava. Olhei para suas mãos que sempre me acolheram tão bem e evitei os olhos...  já estavam fora de meus limites.
- É. - Sussurrei o que soou mais como um grunhido, mentir para ele era impossível...ou quase.
Ele não falou e eu agradeci silenciosamente por não ter que arriscar abrir minha boca outra vez. Eu não suportaria dizer mais nada que o ferisse sem deixar transparecer todo o ódio que eu sentia de mim mesma.
Ainda assim, eu mantive minha máscara de indiferença porque eu sabia que uma represa se formava em meus olhos e eu não podia deixá-la aberta. Olhei para aquele que me fazia suspirar e vi sua face contorcida enquanto ele se levantava.
- Então é isso, cada um para um lado. -
Não. Eu queria gritar que ao lado dele é o meu lugar e que não existe nada além do meu lado para ele estar. Não porque não existe onde eu posss ir sem ele. Não, simplesmente porque não há outro lado a não ser esse que eu estou agora, não há outro caminho que não cruze o dele. Não, porque não existe cada um quando estamos juntos. Não.
- É. -
E então finalmente chegam os lábios caídos e os tais olhos vermelhos. Eu não queria ter que ve-los e muito menos saber que eu sou a causa deles existirem. Eu não gostava nem um pouco disso, porque o vermelho estragava todo o verde azulado de seus olhos. Mas nem assim, eu conseguia deixar de achá-lo a criatura mais linda do universo; do meu universo. As mãos quentes e grandes foram escorregando vagarosamente pelas minhas, agora, frágeis. Congelei em meu lugar, eu sabia o que ele ia fazer. A minha aliança sumiu de meu dedo e se acomodou na palma de sua mão. Eu me segurei contra o banco impedindo-me de tomá-la de volta. Novamente ele levantou seus braços, mas desta vez foi a aliança do dedo dele que desapareceu e cambaleou até a minha. Eu queria poder apertar aquele pequenino objeto redondo em seu dedo de um jeito que nunca mais pudesse sair. Mas ambos sabiamos que agora era mesmo o fim e eu deixei ele dar seu ultimo suspiro em meus cabelos, selando a ultima vez que eu o veria com um olhar distante e um abraço apertado, no qual me aconcheguei por mais tempo que o necessário. Ele estava conformado com o "fato" de que eu não gostava mais dele, como se isso fosse aceitável. Ele havia entendido que era o que eu queria, o que me faria feliz. Tive nojo de mim mesma por fazê-lo sofrer enquanto ele queria nada mais que a minha felicidade. Tudo bem, eu merecia muito mais que isso, mas confesso que, a essa altura, não deveria  ter nenhum pedaço ainda sólido o bastante para se partir dentro de mim.
Caminhei sozinha até a praça mais próxima e desmoronei. Eu tinha certeza que havia feito a coisa certa, mas algo dentro de mim se remexia protestando. Passei minha mão pelo meu peito para tentar juntar os fragmentos e permiti que as lágrimas viessem para limpar toda a sujeira, a bagunça. Eu não seria capaz de dar a ele uma vida normal, porque eu mesma não tinha uma. Também não poderia deixá-lo cuidar de mim como se eu fosse um bebê, ele tinha que seguir em frente. Escorreguei meus dedos até a altura de minha barriga e solucei. Não, eu jamais poderia deixa-lo carregar essa responsabilidade de não ter estado comigo quando a pequena criaturinha que habitava dentro mim, se foi. Justamente no dia em que eu finalmente havia tomado coragem para contar a notícia tão inesperada, quando aquele pequenino ser já estava no auge de seus 3 meses. Levantei e andei sem rumo durante um tempo, conformando-me que esta dor era minha e não dele.
No fim das contas, ficou só a lembrança. E algumas pessoas me dizendo que seria passageiro, que era só uma paixão meio louca de adolescentes. Mas seus olhos verde azulados nunca deixaram minha memória e, mesmo agora, eu sei que poderia encontrá-lo aonde quer que ele estivesse. Porque o maior dos amores conhecido até hoje surgiu aos 13 anos de uma Capuleto e durou apenas 3 dias, então eu tinha certeza que o que eu sentia era um pouco mais forte do que uma besteira da idade. Infelizmente, isso não foi o bastante.


"Então eu digo que não te amo, embora isso me mate. É uma mentira que te deixa livre."

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)