terça-feira, 31 de agosto de 2010

Por favor

As lágrimas querem cair outra vez mas não conseguem, como se faltasse um fator principal para que isso acontecesse. Antes era algo rotineiro, até que um dia, enfim, eu consegui detê-las, mas estou achando que é pior. Porque elas começam a se acumular como um prêmio de mega sena. E me pergunto quem será o "sortudo" que fará aquilo que ainda está faltando para que a represa se abra. Essa água salgada tem me ameaçado durante esse tempo que eu a contive, e talvez por isso ela resolveu então vingar-se de mim.
E escorreu por dentro. Escorreu suas primeiras gotas ferventes, queimando-me aos poucos. E então deixou-se cair fria como gelo, fazendo com que eu ficasse assim; meio adormecida, meio anestesiada. Derramou seu balde que já vinha querendo transbordar, silenciosamente. De forma invisível, porem intensa. E eu descobri que quero que essas lágrimas traiçoeiras caiam de verdade sobre minhas bochechas sem cor. Descobri que dói muito mais quando choramos por dentro, sem deixar o mundo ver que não somos tão fortes quanto aparentamos, do que quando permitimos a abertura da fonte. Percebi que prefiro a forma explícita, aberta, descoberta.
Por isso e portanto, eu quero chorar, e digo isso pela primeira vez na minha vida. Quero colocar para fora, deixar escorrer junto com as lágrimas, toda essa dor que me mata e me polui o ar.
E foi assim, tentando ser forte, que eu aprendi que não se pode guardar tudo numa caixa, porque não cabe. Estou aqui esperando os olhos vermelhos e úmidos, a boca inclinada para baixo e o soluços secos. O nó.
Esperando uma mão para desgrudar esses poucos fios de cabelo que ficarão presos às lágrimas. Uma mão a qual o dono dela não me faça perguntas. Porque eu não sei o motivo real dessa agonia toda. Não há apenas uma razão. É um conjunto de fatores que eu guardei durante muito tempo. Tempo demais. Foram palavras cuspidas e estúpidas, acontecimentos tristes e cada vez mais decadentes.
Então, sentada torta no meu desconforto habitual, eu sinto as famosas gotas com sal dentro de mim, perdidas em algum canto. Eu sinto, e eu quase consigo tocá-las de tão fixadas que estão. Cada uma com seu motivo, sua razão de existir. Mesmo sem muitas esperanças pelas diversas vezes em que pedi e não fui atendida, eu peço novamente com toda a força de vontade restante, para que elas caiam de vez, e levem embora toda a sujeira que se juntou nesses ultimos tempos, enquanto estiveram ausentes.
Peço e imploro, por favor lágrimas, caiam. Como uma enxurrada. Encharcando meu rosto e lavando minha alma. Limpando meus olhos desse resto de lápis de ontem. Apensar transbordem como faziam antes, tão frequentemente.

sábado, 28 de agosto de 2010

Falta

Eu posso pedir um tempo? Será que eu posso pedir menos brigas, menos gritos e menos raiva? Eu posso pedir menos octanagem que não explode com apenas uma faísca? Eu posso pedir menos decepções com promesas falsas? E até mesmo menos promessas feitas sem a inteção de serem cumpridas, como um cheque sem fundo? Menos unhas roídas também me deixaria feliz.
Porque eu não sou tão exigente e não estou pedindo mais roupas, mais cartões de crédito ou mais gloss na minha boca. É só um desejo desesperado de uma mente afetada. Um coração atingido e não cicatrizado. Não peço mais palavras, apenas menos complicações na hora de escolher uma que se adeque ao sentimento certo. E porque não pode? Me frustra, me decepciona, empobrece meu vocabulário. Será que nem por isso tudo eu tenho direito a uma bandeira branca? Menos guerras e mais soluções? Uma trégua talvez? Será que um dia teremos 24 horas normais? Sem interrupções para brigas, gritos ou lágrimas. Sem mortes, cravos ou espinhos. Sem adicionais?
Tempo, juiz! Tempo. Só para eu poder respirar regularmente de novo. Fizeram uma falta que o senhor não marcou porque não viu; não é visível. Um penalt que me fez rolar pela grama. Olhos não acompanharam e ouvidos não estão aguçados o bastante para entenderem. Ainda assim, não deixou de ser uma falta; e como dizem, essa é a morte da esperança.
Não exijo o extraordinário, apenas o simples e confortável já está bom. Porque, no fim das contas, as lágrimas que rolam são minhas enquanto a guerra ainda nem chegou. E eu já estou cansada de sofrer por antecedência. Sofrer pela certeza de que amanhã será igual, ou pior.
Vamos lá, juiz. Cartão vermelho. Não foi sem intenção, foi proposital.
Foi falta.
Falta de amor suficiente para cessar essa fonte de esgoto. Falta de esperança e excesso da morte dela.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Impasse

Você não diria que ele é um Deus grego ou algo do tipo, mas com certeza o colocaria, pelo menos, na classe dos bonitos. Vocês conversam ha alguns anos, e a cada dia você percebe uma nova qualidade nele. Descobre que ele tem objetivos na vida; tem planos e sonhos. Quer casar e ter filhos. Sua ficha é a mais limpa que você já viu e sim, isso inclui não ser galinha. Ele é do tipo gentil, protetor e amável. Carinhoso e amigo para todas as horas. Também está incluso na classe dos 'bem arrumados' e no grupo dos 'inteligentes'. Se encaixa bem na categoria bem humorado e é bom moço, porém não deixando de ter seu pequeno lado malandro.
Ele é o que você descreveria como 'completo'. Cheiroso, atencioso, cavalheiro. É tudo isso e mais um pouco. Também tem lá seus vícios de menino, e os famosos olhos brilhantes ao ver um carro de marca, mas isso é aceitável; chega até a ser charmoso. Nas fotos, lá está ele tocando seu instrumento estranho, mas que te faz achá-lo melhor ainda; te faz babar. Sim, ele é aquele que vai deitar no seu colo e cantar para você. É exatamente o cara que vai te beijar na testa e te chamar de linda, independente da situação. Ele é o menino que você gostaria de ter, e o homem com quem sonharia casar. Você percebe aos poucos que ele é o homem dos sonhos de qualquer mulher; ele é o menino que habita as fantasias e ilusões das garotas. Então, como um estalo, você conclui: Ele é o principe encantado e viria te buscar de cavalo branco, se você pedisse. Ele é o cara que você esperou durante toda a vida, e que achava que não existia.  Afinal, ele te faz sorrir e te coloca lá em cima mesmo quando você não está para papo. Mesmo quando você não dá tanta atenção, ele vem e te mostra que não se importa com o fato de você estar mal humorada. Quando você está no fundo do poço, ele te amarra nas costas e te traz de volta à superfície. Ele pergunta como foi seu dia, e se interessa em ouvir suas ladainhas e tagarelices. Ele te aconselha e percebe quando você não está bem, mesmo que tente esconder isso dele. Ele sabe sua cor preferida e acha lindo seu cabelo molhado, bagunçado e embaraçado. No fim das contas, você nota que é ele quem você idealizaria se pudesse colocá-lo em palavras.
E, como se não bastasse, ele gosta de você.
Numa explosão de surpresa, algo vem e te joga um balde de água fria. Você não gosta dele.
E por que você não pode gostar dele também? Não falta nada; nenhum adjetivo em sua personalidade que te faria pensar duas vezes. As conversas continuam as mesmas e você o vê dizendo palavras que sempre quis escutar, e pensa em como queria poder retribuir esse sentimento; como queria que fosse recíproco. Mas porque todo amor tem que ter um impasse?
Então você descobre que ele é bom demais, e talvez fosse injustiça gostar dele também e querê-lo só para si mesma. Mas, ainda assim, como você queria poder dizer que o ama. Como você queria amá-lo. E não há nada que te impeça de se apaixonar por ele, porque seus defeitos são invisíveis perto de suas qualidades. Você se quer enxerga algo que não te agrade nesse menino. Tudo nele te mostra o quão perfeito é. Porém, você não o quer. Não como o seu namorado, não como seu companheiro. Você se vê tão egoísta a ponto de querê-lo ali, perto de você e gostando de você, mesmo sabendo que não gosta dele da mesma forma.
Porque ele é o tipo de cara que todas as mulheres descrevem como "casável", mas que nenhuma delas quer para agora e você também não. Talvez o jeito seja guardá-lo num vidro com formol; conservá-lo para quando estiver disposta a algo sério.
Mas no fundo, você sabe que não adianta "guardá-lo", porque sabe que não vai se apaixonar por ele, nem mesmo quando for escolher um homem para te levar ao altar. E por que? Por que você gosta daquele cara que não está nem aí para nada, e que nem sequer sabe seu nome inteiro quando tem um homem desses aos seus pés? Você quebra a cabeça para entender porque não pode ser feliz e fazê-lo feliz.
Enquanto isso ele continua lá a te esperar, com seu cavalo branco e seu sorriso gritante. Ele continua a dizer que a ama, dia após dia e que não cansa de te achar linda. Ele continua te olhando com olhos ternos e te abraçando sem tentar se aproveitar de você. Ele continua lá, perfeito e merecedor de tudo que alguém possa oferecer, gostando de você e esperando por você; incansavelmente.
E você continua aqui, egoísta o bastante para não afastá-lo, e idiota o bastante para não amá-lo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Juventude alienada

Agora todo mundo sempre admirou o Robert Pattinson, sendo que quando ele fez Harry Potter todos riam de seu trabalho e o achavam ridículo.
Todos os homens só querem saber de cores flúor e nike colorido e agem como se sempre tivessem sido assim. Todas as meninas sempre acompanharam o trabalho do Fiuk, sendo que a apenas uns seis meses atrás ninguém nem sabia de sua existência.
Agora a moda é chorar e cortar os pulsos, a moda é criar moda e seguir tendência em vez de criar consciencia. A moda é ser lindo por fora e não ter essência.
Agora só o que importa é se eu ouço a nova bandinha do momento, que acha que a porcaria que eles fazem é música. Só o que importa é se eu assisto malhação e me visto como a globo dita.
Agora se eu disser que ouço Blink, Green day, Sum 41 e Strike, todos vão fazer uma careta hipócrita dizendo que a emo sou eu quando, no auge dessas bandas, todos diziam ser fãs.
Porque eles não se conformam com o fato de alguém ainda gostar de música boa e decente, com melodia e uma letra coerente.
A moda agora é causar com calças coloridas e sandálias de borracha. A moda agora é seguir a massa. A moda agora é ser de plástico e ter um coração de pano.
Ninguém mais sabe o que é ser feito de corpo, alma e coração.
Então, quer saber? cansei de tentar ser tolerável. Cansei dessa juventude alienada que pensa que bonito é ver mulher pelada.
Vivam suas vidas plastificadas, com seus gostos pré-estabelecidos e suas modas mal-plagiadas.
Só não venham dizer depois que sempre foram fãs do Marcelo Mancini quando ele estourar de sucesso. Não venham querer dizer que sempre detestaram o Robert quando ele se revoltar e fizer um filme porcaria com uma atuação ridícula. Não venham querer fazer parte do pequeno grupo de pessoas conscientes  e se preocupar com o meio ambiente só quando o mundo estiver acabando.
Não venham falar de essência, e querer fingir decência.
Não venha querer ser feito de carne e osso, quando no passado você deixou sua carne apodrecer para poder se plastificar e enterrou seus próprios ossos para não mais ter que raciocinar.



Revolta sim. Em um show do strike no dia 22/08/10 (ontem), uma menina teve a coragem de perguntar: "Quem é aquele de topete, que está tocando guitarra?".
E depois de descobrir o nome do dito cujo (Rodrigo Maciel, guitarrista), teve a cara-de-pau de gritar: "Eu amo vocêêê, Rodriigo!".
Pois é, essa é a juventude plastificada e hipócrita de hoje em dia.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Irresistível

Você me engana desde sempre, diz que vai dormir e desliga o celular. Então eu termino nosso caso e digo que você não presta, mas no dia seguinte lá estás com uma rosa e aquele seu sorriso que me faz ofegar e destrói toda minha resistência.
E então eu penso, quando eu vou aprender? Mas é que quando eu penso em você eu perco o controle e quando você sorri para mim, meus pulmões se fecham me impossibilitando de respirar.
E eu luto contra isso com todas as minhas forças, até chegar você com essa cara de malandro e me desarmar novamente. O que eu vou fazer agora? Se quando você me pega em teus braços eu não sei querer sair? Pois é, eu não acredito que lá vou eu de novo. Como posso resistir a você? Apesar de meu coração estar em pedaços, eu senti tanto sua falta! Então por quê? Por que eu o deixei partir? Eu sei que fiquei brava e te mandei ir embora, mas você sabe que não sou tão forte assim. Você sabe e tira proveito do fato de eu me derreter quando te olho. Droga! Quando será que vou aprender? Se eu vou embora e volto correndo já ouvindo os sinos tocando?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Amargamente doce

Se há lições a serem aprendidas, o único aluno aqui é você. O meu caminho eu continuo sem ter que estudar a teoria. Eu parto para cima e avanço o nivel da experiência. Você pode entrar no meu carro e se segurar nas bordas do banco, porque meu pé dificilmente irá deixar o acelerador. Os meus freios andam enferrujados por permanecerem intactos a algum tempo e eu sinto dizer mas, por enquanto, você não me parece real o bastante para me fazer parar. No momento, a minha experiencia é você. E isso pode dar certo ou não. Eu não sou do tipo que entrega o jogo de bandeja. Então temos que acertar uma coisinhas sobre isso antes de partirmos para as apostas. Entenda que eu posso ser tão boa quanto eu quiser. Ou tão má quanto você duvida. O nosso acordo chega até onde você quiser e souber, mas a recompensa só se ganha depois de passar na prova. Não se engane quanto a esse meu sorriso singelo, ele pode estar apenas testando a sua reação. Porque eu sei ser o que for quando convir. Não vou mentir que sou santa. Mas não sou falsa, nem sou tirana ou ditadora. As regras são claras e estão na primeira cláusula deste contrato. Quando digo que será do meu jeito, é só porque sei que o seu plano tem falhas. Se eu pareço criança é só pelo simples fato de que você não conseguiu despertar meu lado mulher. Eu ajo de acordo com a ocasião. Então não permita que a situação atinja um ponto crítico se não quiser ser deixado para trás. Deixo avisado que não sou de papel para rasgar e meu coração não é porcelana feita para quebrar. Me desculpe, mas não sou tão ingênua quanto pareço e suas palavras não me convencem por serem bonitas; não me afetam por parecerem sólidas. Você pode dirigir se isso for o que fizer de melhor, ou me entregar as chaves.
Eu não tenho asas, e não me deixo levar fácil assim. Você tem duas opções enquanto estiver disposto: ou me conquista por completo ou parte para outra. Não há meio termo. E existe um porém quando você se fizer uma exceção a regra, desde que sejas uma exceção certa a uma regra errada. Se assim for, então a guerra terá acabado. E pode acreditar que eu sei diferenciar o que você é, daquilo que quer fingir ser. Então seja aquilo que você for e faça isso da maneira que você souber. Acostume-se com meu jeito ou siga seu caminho sozinho. Eu nunca disse que seria fácil e você sempre soube que estaria sendo avaliado e não mantido em banho maria. Não há nada mais que eu possa dizer quando você pensa que já sabe tudo. Só não vá falir quando vier querer apostar com esse tipo de jogo e não se queime quando perceber que eu não sou mera chama de palha seca. Porque a essa altura você já deve ter notado que nada passa despercebido por mim e que eu posso incendiar sua floresta antes mesmo de você chamar os bombeiros. Então, recomendo que vá devagar com esses ditados falsos sobre cães que ladram não mordem. Eu não sou cachorro, mas eu aviso e eu mordo, e não há nada 'bonitinho' na marca que eu posso deixar. A primeira fase é só um teste; uma especulação de quanto isso pode me custar. Se for demais para você, eu sugiro que siga com a sua vida, porque aqui é na base da possibilidade; eu posso ser legal ou não. A partir do momento em que a moeda cair no chão e revelar seu lado, é cada um por si.
Eu não vou apenas brincar de boneca quando se trata do meu coração. É como eu te disse, a primeira fase é cruel, mas nada aqui é definitivo. Eu despirei minha armadura assim que você me entregar a espada que estava guardando para perfurar-me e já deixo garantido que, quando e se você se render, o prêmio será triplicado e aí então eu trarei a recompensa. Porque você sabe que não basta apenas fazer acontecer, qualquer um faz. Comigo o seu maior problema será fazer por merecer. Portanto entenda de uma vez por todas enquanto eu ainda estou te ensinando e tornando a sua jogada mais fácil. Aprenda isso tudo antes de deixar-se cair nesse precipício que paira sobre meus olhos:  não há absolutamente nada fofo em mim, não sou açúcar para ser doce, eu sou venenosa e não, meu veneno não tem antídoto. Talvez na sua segunda etapa, eu possa ir mais devagar; quem sabe. Mas até lá, sou eu quem dito as regras.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Narcisismo

Eu já quis não ser eu. Tive dias difíceis em que eu decidi simplesmente me ignorar.
Tive medo, tive coragem.
Já quis sentir menos saudade daquela pessoa que nem era tãão próxima assim, mas que me fazia um bem inexplicável.
Eu tentei fazer omelete sozinha também. Não deu certo.
Eu já tive vontade de ser amiga daquela menina que sempre passava por mim e dava um risadinha constrangida. Já tive vontade de abraçar aquele menino que estava sentado no muro chorando sem causas aparentes e dizer que tudo vai ficar bem.
Algumas pessoas já que me magoaram, e eu conheci mais pessoas más do que boas. Mas as boas, valiam por todos os seres humanos que eu já vi na vida.
Poucas pessoas me encantaram, mas essas que o fizeram me deixaram a ponto de eu não conseguir parar de olhá-las.
Eu já me culpei por ter falado demais e por ter ficado quieta quando deveria ter colocado as palavras para fora.
Eu já gostei de mim mesma como eu sou, e já me detestei por ser assim.
Tive muitos problemas, mas guardei muitas soluções.
Já aprendi sem querer, já errei sabendo que ia errar. Já sorri por cortesia, já chorei apenas por chorar.
Descobri que eu já tive muitos prós e contras, e que eu sou um ponto de interrogação em uma oração restritiva.
Percebi que não posso ser outra pessoa, mas que posso mudar quem sou.
Descobri que as vezes eu sou eu sem perceber, e que outras vezes eu forço para ser alguém diferente e acabo sendo eu novamente.
Então mesmo que não agrade a ninguém eu sou assim, dessa forma que você vê, desde o primeiro fio de cabelo até o ultimo dedo do pé.
Concluo então que só existe uma única forma de ser, e é exatamente aquela que você é. Independente de como você seja; independente de quantas vezes você mude; independente de isso ser algo positivo ou negativo.

sábado, 7 de agosto de 2010

Insuficiente

Ele segurava minha mão fortemente contra a sua, e isso só piorava a situação. Tentei falar a primeira vez e engasguei. Tentei de novo e as palavras saíram vomitadas, cuspidas e erradas. Analisei com cuidado suas possíveis reações, antes de forçar uma frase decente boca afora, algo que parecesse com palavras e não com sussurros guturais.
- Eu quero terminar. -  Fracassei quanto a voz, mas dessa vez ele entendeu.
Não sei dizer bem qual foi a emoção que passou por seu rosto, porque foram várias. Primeiro ele sorriu como quem não entende, depois ficou pensativo e enfim me encarou com olhos arregalados que eu nunca desejei ver em seu rosto, agora, tão desnorteado. A voz saiu atropelada, molhada, empurrada ribanceira abaixo como uma enxurrada.
- Mas, porque você não quer mais? O que eu fiz de errado? Sei lá, parecia que estava tudo indo bem e de repente você me vem com essa de querer terminar. O que aconteceu?
Parei para pensar também. Ah meu menino, como eu queria te dizer que o que aconteceu foi o amor. Como eu queria poder explicar que tudo aquilo que não eu não deveria fazer, eu fiz: permiti que você se apaixonasse por mim também. E como eu quebrei minhas promessas secretas de não me deixar levar por seus encantos. Eu entendo que talvez você também vá sofrer um pouco, mas o único motivo para eu seguir com isso é só que eu sei que será melhor. Eu sei que tenho que te deixar seguir com sua vida sem a interferência desse meu caminho sinuoso e sem placas. Isso te faz mal também, e me mata mais a cada dia. Por que eu tive que me apaixonar por você? E te envolver nesse meu mundo desastrado e problemático? E como eu faço agora para te tirar dessa confusão sem te machucar ainda mais?
Entretida em meus devaneios malucos, mal percebi que seus olhos vacilavam. Frustração. Eu conhecia esse sentimento. Ele queria uma explicação, mas minha garganta não se manifestava.
- Você não me ama mais. -
Era uma afirmação. Meu coração saltou em protesto contra essa blasfêmia e eu gemi derrotada.
- É isso não é? -
E como explicar que não era nada disso e que a única razão para eu deixá-lo era exatamente o amor? Ele não entenderia de outra forma. Ele é bom demais para mim, eu sei, e por isso mesmo que ele jamais iria me deixar afundar sozinha. Mas já era ruim o bastante afundar, e leva-lo comigo? Não, isso era cruel demais. Eu não podia fazer isso com ele, logo ele. E não ama-lo? Como poderia pensar algo como isso? Eu amava cada fibra de seu corpo com cada poro do meu. Eu poderia passar o resto da vida apenas escutando a forma sem ritmo como seu coração bate ou sentindo seu perfume macio. Poderia passar anos bem quieta só para ouvir sua voz rouca, de madeira úmida. Não ama-lo? Eu seria capaz de criar asas e voar se disso dependesse a vida dele. Eu o conhecia desde seu primeiro fio de cabelo até a ultima unha de seus dedos. Sabia seus gostos e desgostos. Cada olhar e cada sorriso, apenas eu poderia ver o que havia por trás. Eu seria capaz de reconhecê-lo em meio a uma chuva de pessoas, cheiros e sabores. E, no fundo, ele sabia disso tanto quanto eu.
Eu não podia ser dele pela metade, agora que a outra parte de mim havia morrido, quando ele era meu por inteiro. Por isso, eu suportaria a distancia entre nós. Eu suportaria porque sabia que alguém lá fora o faria feliz de um jeito que eu não posso. E era exatamente o que eu estava tentando fazer, embora meus orgãos se remoessem manifestando-se de forma dolorosa dentro de mim. Respirei fundo e juntei a pouca dignidade que ainda me restava. Olhei para suas mãos que sempre me acolheram tão bem e evitei os olhos...  já estavam fora de meus limites.
- É. - Sussurrei o que soou mais como um grunhido, mentir para ele era impossível...ou quase.
Ele não falou e eu agradeci silenciosamente por não ter que arriscar abrir minha boca outra vez. Eu não suportaria dizer mais nada que o ferisse sem deixar transparecer todo o ódio que eu sentia de mim mesma.
Ainda assim, eu mantive minha máscara de indiferença porque eu sabia que uma represa se formava em meus olhos e eu não podia deixá-la aberta. Olhei para aquele que me fazia suspirar e vi sua face contorcida enquanto ele se levantava.
- Então é isso, cada um para um lado. -
Não. Eu queria gritar que ao lado dele é o meu lugar e que não existe nada além do meu lado para ele estar. Não porque não existe onde eu posss ir sem ele. Não, simplesmente porque não há outro lado a não ser esse que eu estou agora, não há outro caminho que não cruze o dele. Não, porque não existe cada um quando estamos juntos. Não.
- É. -
E então finalmente chegam os lábios caídos e os tais olhos vermelhos. Eu não queria ter que ve-los e muito menos saber que eu sou a causa deles existirem. Eu não gostava nem um pouco disso, porque o vermelho estragava todo o verde azulado de seus olhos. Mas nem assim, eu conseguia deixar de achá-lo a criatura mais linda do universo; do meu universo. As mãos quentes e grandes foram escorregando vagarosamente pelas minhas, agora, frágeis. Congelei em meu lugar, eu sabia o que ele ia fazer. A minha aliança sumiu de meu dedo e se acomodou na palma de sua mão. Eu me segurei contra o banco impedindo-me de tomá-la de volta. Novamente ele levantou seus braços, mas desta vez foi a aliança do dedo dele que desapareceu e cambaleou até a minha. Eu queria poder apertar aquele pequenino objeto redondo em seu dedo de um jeito que nunca mais pudesse sair. Mas ambos sabiamos que agora era mesmo o fim e eu deixei ele dar seu ultimo suspiro em meus cabelos, selando a ultima vez que eu o veria com um olhar distante e um abraço apertado, no qual me aconcheguei por mais tempo que o necessário. Ele estava conformado com o "fato" de que eu não gostava mais dele, como se isso fosse aceitável. Ele havia entendido que era o que eu queria, o que me faria feliz. Tive nojo de mim mesma por fazê-lo sofrer enquanto ele queria nada mais que a minha felicidade. Tudo bem, eu merecia muito mais que isso, mas confesso que, a essa altura, não deveria  ter nenhum pedaço ainda sólido o bastante para se partir dentro de mim.
Caminhei sozinha até a praça mais próxima e desmoronei. Eu tinha certeza que havia feito a coisa certa, mas algo dentro de mim se remexia protestando. Passei minha mão pelo meu peito para tentar juntar os fragmentos e permiti que as lágrimas viessem para limpar toda a sujeira, a bagunça. Eu não seria capaz de dar a ele uma vida normal, porque eu mesma não tinha uma. Também não poderia deixá-lo cuidar de mim como se eu fosse um bebê, ele tinha que seguir em frente. Escorreguei meus dedos até a altura de minha barriga e solucei. Não, eu jamais poderia deixa-lo carregar essa responsabilidade de não ter estado comigo quando a pequena criaturinha que habitava dentro mim, se foi. Justamente no dia em que eu finalmente havia tomado coragem para contar a notícia tão inesperada, quando aquele pequenino ser já estava no auge de seus 3 meses. Levantei e andei sem rumo durante um tempo, conformando-me que esta dor era minha e não dele.
No fim das contas, ficou só a lembrança. E algumas pessoas me dizendo que seria passageiro, que era só uma paixão meio louca de adolescentes. Mas seus olhos verde azulados nunca deixaram minha memória e, mesmo agora, eu sei que poderia encontrá-lo aonde quer que ele estivesse. Porque o maior dos amores conhecido até hoje surgiu aos 13 anos de uma Capuleto e durou apenas 3 dias, então eu tinha certeza que o que eu sentia era um pouco mais forte do que uma besteira da idade. Infelizmente, isso não foi o bastante.


"Então eu digo que não te amo, embora isso me mate. É uma mentira que te deixa livre."

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Trancada a sete chaves

Me veio uma vontade. Uma vontade de um você que eu não conheço. De um 'você' em quem eu confiasse demais.
Eu queria um alguém para contar as minhas besteiras e chatices. Mas isso é estranho. Porque eu nunca fui muito do tipo que se abre sobre tudo para todos, mas hoje eu não sei.
Hoje eu queria ter alguém para contar que meus dedos estavam congelando. Eu queria alguém para contar meus segredos mais secretos, minhas verdades mais absurdas e minhas estórias mais loucas.
Eu queria mesmo um ouvido para me ouvir. Queria aquele bom e fiel ouvinte e ótimo crítico quando eu precisasse de opiniões. Mas enquanto esse alguém não chega, eu permaneço trancada sete chaves.
Eu queria me abrir como um livro infantil, e deixar saltar de minhas páginas todos aqueles monstrinhos e fadinhas. Queria ser lida e interpretada, examinada e descoberta através de entrelinhas confusas. Queria ter alguém para quem eu pudesse e quisesse contar sobre absolutamente tudo na vida. Eu queria um bom leitor para me folhear.
Eu queria não só contar, mas queria que essa pessoa quisesse me ouvir. Queria o interesse em saber sobre mim, em ouvir minhas ladainhas e minhas reclamações. Queria uma chave para abrir esse cadeado que amarra minhas folhas volumosas. Eu queria ser um livro aberto, contado em voz alta com o tom e a entonação certos. E pensando bem, eu não queria nada disso...    eu ainda quero.