segunda-feira, 26 de julho de 2010

Repelente

Desta vez eu me certifiquei de ficar bem quieta no meu canto, mas vejo que não adiantou muita coisa, porque o lugar ao meu lado está vago novamente e ninguém ousa preenchê-lo. Agora, há apenas uma senhora rabugenta sentada na outra ponta do banco.
Eu gostaria de saber porque.
Eu não tagarelei, não fui chata, não fiz brincadeiras sem graça e nem fui inconveniente. Então vamos lá, me diga qual é o problema, porque eu exijo saber.
Esse efeito repelente tem me causado alguns transtornos e ninguém parece disposto a quebrá-lo. Eu até imaginava que, um dia, alguém teria que ser imune ao meu 'super poder' e hoje eu vejo que isso nunca passou de imaginação. Então não perceberam que tem um coração a mais batendo nesta sala.
Num cômodo colorido, eu sou o cinza ou a melhor camuflagem com a parede. Mas eu já tentei colocar um pouco mais de cor no meu sorriso, e um pouco mais de vida no meu fôlego. Já tentei mudar meu campo para o negativo; quem sabe assim eu não afastaria as pessoas. Já tentei também me parecer mais com alguém que querem que eu seja, e já tentei vários outros métodos.
Nada deu certo, para não dizer que piorou.
As palavras se esvairam, as pessoas se afastaram, e meus amigos imaginários sumiram de minha mente.
Eu deveria mesmo me conformar com isso? Confesso que as vezes é até conveniente, mas só de vez em quando, porque na maior parte do tempo essa 'característica' exclusivamente minha não me favorece.
E não deveria ser o contrário? Ou eu sou multipolar?
Distância, brigas, novas amizades ou afastamente natural.. tudo agora é motivo. Mas nada é realmente um bom motivo.
Até a senhora ao meu lado moveu-se para o outro banco. Aquele mesmo em que todos estão se espremendo para caber, enquanto neste eu permaneço sozinha.
Então, se antes eu era cinza, agora eu sou invisível?!
- Ei, tem lugar aqui!
...
Só pra não dizer inaudível também.
Rejeitada por porta automática, engolida por multidões, esquecida por atendentes, ignorada por vendedores, passada para trás em filas, abandonada por ônibus, inaudível até para pessoas próximas e, aparentemente, invisível a olho nu. Concluo que talvez eu nem exista e não saiba.

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