terça-feira, 13 de julho de 2010

Fraqueza

Venha até mim e pegue minha mão. Eu quero sonhar mais um pouquinho e não estou me importando o suficiente com a decepção que virá para que possa te mandar ir embora. Eu sei que depois disso, o vazio ficará maior, pior, mais doloroso. Mas, no momento, eu quero sentir você aqui comigo. Mesmo sabendo que é passageira e inexistente a sua presença e tudo o que vem com ela. Plenamente ciente de que isso me dilacerará mais tarde, eu anseio por mais de você - que eu nem mesmo sei quem é. Eu quero ouvir sua voz e ver suas expressões desenhando seu rosto. Eu quero sentir sua presença e sua respiração como se elas fossem reais. Quero deixar fluir essa conversa silenciosa e quero seus olhos demorando nos meus. Uma espécie de mão tenta me puxar de volta e erguer minhas pálpebras, mas eu as fecho novamente com força, apertando-as mais contra meus olhos, recusando-me a acordar. Permaneci muito tempo adormecida de uma forma robótica e sem sonhos e concordo que talvez tenha sido o que restou da minha sanidade tentando me manter afastada de mais fontes de ataques, mas sem sucesso. E agora que eu voltei a ilusão, não vou deixá-la ir embora tão fácil. O plano do meu corpo fracassou, porque eu não posso simplesmente me manter fechada por muito tempo. Eu tentei.. realmente tentei. Construi alguns poucos e fracos muros de gelatina ao meu redor, porque eu não sou tão forte assim para fazer dessas barreiras paredes mais sólidas e consistentes. Infelizmente eu levantei tijolos com o intuito de ve-los sendo quebrados por você. No fim das contas, eu queria mesmo te ver romper meus pensamentos. É masoquismo, eu sei. E é doentio. Mas não posso e, espantosamente, não quero afastar essas fantasias e ilusões de mim. Pode soar estranho, mas não sou o tipo de pessoa que implora para esquecer algum acontecimento ou algum relacionamento. Eu sou o contrário, só para variar. O oposto de auto preservação. Parece até que eu gosto de destruir-me. Apenas volto nas imagens que me ferem. Em minha cabeça, eu grifo cada palavra que foi mentida para mim e permito a abertura da represa em meus olhos. Eu sublinho lembranças tristes e aumento para o tamanho de uma tela de cinema as minhas piores memórias. Eu corro atrás de minhas ilusões, de meus sonhos impossíveis e fantasiosos.  Eu destaco meus erros passados, e me arrependo mais uma vez.
A fraqueza me consome, e eu permito. Eu deixo ela me corroer de dentro para fora. Não a impeço, não a detenho. Não tenho vontade de treinar minhas forças para resistir a esses auto-ataques. Em compensação, a realidade contra ataca, me chamando de volta. Ordenando que meus pés voltem a pisar nesse chão duro e frio. Mas nem mesmo meu corpo tenta me impedir de devastar-me. Talvez até já tenha me acostumado a essa dor excruciante da verdade. Por isso, já que não há mais salvação para mim e eu estou condenada a viver escrava de minhas ilusões impossíveis, eu permaneço tentando pelo menos fingir que tudo que eu quero é verdade e está ao meu alcance, disponível. Eu criei mesmo um mundo mágico cheio de fantasias e ilusões, cheio de tudo que eu jamais terei por maior que seja a força com que eu quero ter. E isso é puro fruto dessa besteira que dizem que a imaginação de uma criança tem que ser aguçada e desafiada com tudo aquilo que é sobrenatural. Eu me afundei nos castelos, terras do nunca, submundos e criaturas inexistentes, e eu confesso que fiz tudo isso com o único intuito de me arrancar dessa minha vida desastrada e sem rumo. Apenas para fugir de uma realidade trágica: a minha própria realidade.
Não sei se isso faz bem a minha tão abalada sanidade mental, mas é o meu último recurso e eu preciso dele como um viciado precisa de sua droga. Então, apenas me deixe aqui com meus sonhos frustrados. Me deixe desfrutar da imaginação da essência do que seria o gosto da realização. Eu até posso continuar vivendo dessa maneira, embora eu tenha sérias dúvidas sobre isso ser uma forma de vida ou de existência. Porque por mais incrível que pareça, eu também treinei viver sem você, e até consegui.. mas não era exatamente o que eu chamaria de vida. Eu sobrevivi com sua falta, mas isso não quer dizer que eu tenha vivido com ela. Sinto dizer, mas prefiro a ilusão do que seria viver com sua presença, do que a certeza da dor que é existir com sua ausência.



Sim eu sei que poderia simplesmente me culpar, mas não vou. Porque eu tenho no momento apenas uma certeza: a culpa de toda essa confusão é inteiramente, inegavelmente e irrevogavelmente do criador da frase "Era uma vez..", que fez com que toda essa magia da sobrenaturalidade fosse tentadora demais para recusarmos, ainda mais sendo nós crianças inexperientes como todos um dia fomos.

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