quarta-feira, 16 de junho de 2010

Torcedor

O clima de copa está em todas as casas, ruas e parques do país e você se prepara para o grande dia. Compra bandeira, camiseta, bandana, corneta e tudo que faz barulho e que seja verde e amarelo e já começa a fazer a pipoca. Os carros deixam as avenidas, e a cidade cai no silêncio profundo. O sofrimento típico da copa está por vir.
Soa o apito e o jogo começa juntamente com o seu desespero. Um comichão já conhecido vai te invadindo por dentro enquanto a bola corre pelo gramado. Um euforia constante misturada com ansiedade, formando uma vitamina energética no seu fígado. Um sentimento sem nome que começa na ponta dos pés, te faz balançar as pernas impacientemente e pára no estômago, esmagando as borboletas que permaneciam adormecidas, dando origem a gafanhotos e libélulas que não cansam de voar e pular por dentro de você. Seus olhos começam a ver seres inexistentes conforme acompanham os movimentos dos jogadores e você conclui que o prêmio vai ser sofrido.
Angústia, frio na barriga, um brilho rápido no olhar, uma batida torta de coração, um formigamento nas mãos, uma breve parada respiratória, uma quase alegria do QUASE gol e a decepção do não-gol tomam conta do seu ser durante todo o primeiro tempo. Então você engole pipocas com refrigerante tudo junto, como se fosse o ultimo alimento da face da Terra e você estivesse sem comer desde a ultima copa.
O jogo recomeça.Você dá adeus a todas as suas unhas, arranca seus fios de cabelo com o dente, mastiga a camiseta e vibra feito um celular no silencioso. Não é exagero, é emoção. Você quer estapear o goleiro que quase levou um frango, e afogar o Robinho na privada de um banheiro público.  E começa aquela vontade de entrar na TV e chutar direto para a trave. As gotas de suor brotam na sua testa já enrugada e suas mãos agora beliscam-se uma na outra. E de repente, como uma luz no fim do túnel, os jogadores disparam para a frente e Maicon dá um leve toque no cantinho.Você escuta o Galvão gritar GOL a plenos pulmões e soltar a vinheta do Brasil sil sil sil com um apito no fundo e seu coração pára por horas, aparentemente, enquanto seus ossos estão calcificando no sofá. Em câmera lenta, você volta a si e começa a gritar também; chora, ri, esperneia, bate o pé, aplaude, derrama coca no chão, pula da janela, senta em cima da pipoca, beija a televisão, suja a parede de mostarda e bate no seu primo. O alivio te invade como se seu filho acabasse de ter nascido. É gol do Brasil. O corpo fica mole, a cabeça começa a girar e você ri parecendo um bêbado numa festa do hospício, cantando Ooooo que é a única parte que você sabe da música Wavin'flag.
E o jogo continua, te matando e ressucitando novamente a cada QUASE do adversário.
Um outro gol do Brasil acontece e você praticamente mata sua tia enforcada, enrolando a bandeira no pescoço dela.
Porem um banho de água fria e azeda se derrama sobre você quando a outra seleção marca o tão temido gol, fazendo-o pensar seriamente sobre suicidio. Assim vai até o resultado ganhador, óbvio na sua cabeça, e o apitar do fim da partida. Então seus músculos se descontraem e você sorri despreocupado pensando que essa copa vai ser mesmo uma moleza porque, se quer mesmo saber, nem os europeus e muito menos os americanos são páreos para torcedores como você.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)