domingo, 27 de junho de 2010

Permanentemente mutável

Andam dizendo por aí que me conhecem, mas me parece um pouco injusto porque nem eu mesma consigo essa proeza. E acho que talvez seja porque eu nasci meio defeituosa, meio igual demais ou diferente demais.
Eu posso estar assim hoje, meio colorida, meio piadista, meio palhaça mal paga. Mas eu não sou sempre assim, e nem nunca fui. Porque eu também fico bem com o cinza e os tons pastéis, eu também perco as palavras numa conversa até agradável e nem mesmo sei porque. Não se engane quanto a mim, porque eu sou sempre eu, mas não sou um só eu em uma só pessoa. Eu sou a junção de vários sabores, cheiros, sentimentos e dias. Sou as cores somadas com a transparencia. É como se fosse vários derivados de uma mesma base. Eu sou o leite, mas também posso ser o requeijão, o queijo ou a nova maionese da hellmans. Sou a batata, ou o purê.
Eu posso estar com uma idéia em mente agora, uma opinião formada, mas bastam alguns minutos para reconsiderar os outros lados da moeda e logo mudar de escolha, ou não. Posso ser previsível e perguntar como foi o seu dia, ou posso te surpreender e morder sua bochecha. Quando anoitece, não sinto exatamente sono nem empolgação, eu sinto um nada meio vazio demais, ou desabo na cama. Deitada em meu travesseiro macio eu posso sorrir abraçada com meus companheiros de pano de tantos anos e pensar que enfim não vou levantar cedo amanhã. Eu posso, mas nem sempre faço isso e já cheguei até a inundar meus cobertores com uma estranha água salgada que parecia que nunca pararia de brotar dos meus olhos. Então eu encontro uma palavra para isso: mudança. Mas como pode ser, se na verdade eu não mudo totalmente? Eu transformo, reciclo, renovo. Mas eu mudo? Querendo eu não, eu sou sempre a mesma e não sou sempre igual. Paradoxo seria uma tradução mais plausível, mas nem sempre eu entro em conflitos comigo mesma, as vezes até concordo com o que penso. Quando começo a falar, as pessoas param para ouvir e o silêncio delas me corroe, como se eu estivesse gritando algo e exigindo que prestassem atenção. Ou não me ouvem, e eu fico com cara de idiota.
Chata, com a voz irritante e lerda. Tapada, sem sal e nem nada a acrescentar, o que a minha presença muda no mundo? Eu não posso negar que sou uma adolescente e que faço justiça a minha idade e tenho certas crises, mas as guardo para mim. E em grande parte do tempo, sou até responsável demais. Não tenho papo, nem assuntos interessantes, mas saio tagarelando por aí, e sobre o que? Tenho medo do silêncio, e quando este me inunda, tenho medo de quebrá-lo. Tenho vontade de gostar de certas coisas e medo de não gostar de algumas outras. Sigo meu caminho, mas nem sempre vou em frente. Escolho parar em um posto de gasolina, pegar atalhos e virar a esquerda quando a placa aponta para a direita. Gosto de caminhos tortos e pistas sinuosas, do errado, do torto, trilhas incertas e dias incomuns. Gosto da certeza, da rotina, do direto e reto, do certo. Da vida olhada pela janela, ou vivida numa esquina qualquer. Minhas impressões costumam estar certas, e minhas intuições sempre atingem a mosca, mas eu nunca as sigo. Opto pelo correto, pelo plano traçado e não saio nenhum centímetro do mapa. Porem minha cabeça arma um esquema inteiro para trapacear. Eu sou trapaceira, e eu blefo, mas só comigo mesma. Eu aposto e eu jogo com meu próprio coração. O bom senso me acompanha por onde eu for, mas na maioria das vezes me atrapalha. Eu sou extrema, gosto da borda do abismo ou da calçada. Meios termos não me agradam tanto quanto as cores vibrantes, mas me fazem feliz em dias de chuva.
Estranho como essa pequenina palavra me irrita, mas está sempre comigo. Eu não gosto de "Ou". Detesto duas escolhas e fico louca com uma única opção. Entro em uma briga a meu favor, e saio torcendo pelo lado oposto. Sou em partes mocinha e adoro meu lado vilã. Eu sou estranha, ou sou normal demais. E isso não é sem graça? Eu altero meu ritmo constantemente para uma melodia inconstante. Penso que as pessoas me vêem com olhos de acusação, como se eu fosse a errada, a demodê. Mas não sou mais especial que ninguém para ganhar exclusivos olhares intrigados. Tenho problemas, tenho soluções. Não faço por merecer, nem mereço o que faço. Distante e perto demais, minha proximidade com o exterior é fraca mesmo estando sempre lá. Sonho e realizo, só no sonho. Caio do cavalo e levanto, ou não. Por vezes fiquei estatelada no chão, com a cara na lama esperando por uma mão para me salvar. Quem sabe o peter pan. Idiota, inconstante e entediante demais. Afinal, há mesmo alguma razão para eu estar aqui? E há algum motivo para que não estivesse? Anseio por respostas, mas nem mesmo sei quais são as perguntas.
Faço-me então de desentendida, quando sei muito mais do que deveria. Posso surpreender, mas não consigo. Posso fazer acontecer, mas não quero que aconteça através de mim. Sou egoísta por pensar só em mim, e as vezes masoquista por não me importar comigo mesma o suficiente. Sou farsante de brilhantes olhos e longos sorrisos, dou conselhos errados mas que funcionam com os outros. Talvez o defeito seja só em mim, porque quando resolveram dar aos seres humanos a essência, exageraram na minha dose. Fiquei também com litros de emoção, toneladas de perguntas e milhas de decisões a serem tomadas.
Então acho que sei qual é a palavra que me diz respeito, excesso ou falta. De informações, de lágrimas, de egocentrismo, de pensamentos e de excentrismo. Falta de memória, excesso de lembranças. Falta de espaço, excesso de saudade. Falta de mim mesma, e excesso da minha pessoa. Falta quando preciso e excesso quando não quero.
Falta de excessos e excesso de faltas. E isso é um defeito corrígivel?
Louca insana. Briguenta. Apaziguadora de situações. Chata. Tagarela. Convencida. Vaidosa. Preocupada. Sem graça. Normal. Estranha. Desatenta. Observadora. Quieta. Otimista. Esperançosa. A primeira a querer desistir. Pega as coisas no ar. Desligada. A ultima a abandonar o barco. Desleixada. Auto-crítica. Amigável. Antipática. Social. Sorridente. Dramática. Mimada. Realista. Revolucionária. Chorona. Detesta discussões. Sentimental. Sonhadora. Pés no chão. Estudiosa. Entediante. Insatisfeita. Igual. Diferente. Altruísta. Pacífica. Colorida. Visível. Transparente. Intocável. Pegajosa. Egoísta. Substituível. Madura. Inigualável. Infatil.
Tantos 'eus' psicológicos em apenas um eu físico. Isso não vai contra as leis? Talvez até vá, mas acho que já me acostumei a infringir certas ordens expressas, e a obedecer alguns pedidos sem compromissos.
Aceito que essa seja eu, ou não seja eu. Porque sei que esta é pelo menos uma parte de mim, instável e absoluta dentro dessa interrogação que há pairando sobre esta minha existencia peculiar. Acho que sempre soube que seria assim, e nada mudaria ou ficaria para sempre na mesma ordem de fatores desiguais. Não sei como e nem porque, mas sei que é deste jeito e é assim que tem que ser: Incorrigível sem parecer.


O termo mais aceitável? Permanentemente mutável.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Torcedor

O clima de copa está em todas as casas, ruas e parques do país e você se prepara para o grande dia. Compra bandeira, camiseta, bandana, corneta e tudo que faz barulho e que seja verde e amarelo e já começa a fazer a pipoca. Os carros deixam as avenidas, e a cidade cai no silêncio profundo. O sofrimento típico da copa está por vir.
Soa o apito e o jogo começa juntamente com o seu desespero. Um comichão já conhecido vai te invadindo por dentro enquanto a bola corre pelo gramado. Um euforia constante misturada com ansiedade, formando uma vitamina energética no seu fígado. Um sentimento sem nome que começa na ponta dos pés, te faz balançar as pernas impacientemente e pára no estômago, esmagando as borboletas que permaneciam adormecidas, dando origem a gafanhotos e libélulas que não cansam de voar e pular por dentro de você. Seus olhos começam a ver seres inexistentes conforme acompanham os movimentos dos jogadores e você conclui que o prêmio vai ser sofrido.
Angústia, frio na barriga, um brilho rápido no olhar, uma batida torta de coração, um formigamento nas mãos, uma breve parada respiratória, uma quase alegria do QUASE gol e a decepção do não-gol tomam conta do seu ser durante todo o primeiro tempo. Então você engole pipocas com refrigerante tudo junto, como se fosse o ultimo alimento da face da Terra e você estivesse sem comer desde a ultima copa.
O jogo recomeça.Você dá adeus a todas as suas unhas, arranca seus fios de cabelo com o dente, mastiga a camiseta e vibra feito um celular no silencioso. Não é exagero, é emoção. Você quer estapear o goleiro que quase levou um frango, e afogar o Robinho na privada de um banheiro público.  E começa aquela vontade de entrar na TV e chutar direto para a trave. As gotas de suor brotam na sua testa já enrugada e suas mãos agora beliscam-se uma na outra. E de repente, como uma luz no fim do túnel, os jogadores disparam para a frente e Maicon dá um leve toque no cantinho.Você escuta o Galvão gritar GOL a plenos pulmões e soltar a vinheta do Brasil sil sil sil com um apito no fundo e seu coração pára por horas, aparentemente, enquanto seus ossos estão calcificando no sofá. Em câmera lenta, você volta a si e começa a gritar também; chora, ri, esperneia, bate o pé, aplaude, derrama coca no chão, pula da janela, senta em cima da pipoca, beija a televisão, suja a parede de mostarda e bate no seu primo. O alivio te invade como se seu filho acabasse de ter nascido. É gol do Brasil. O corpo fica mole, a cabeça começa a girar e você ri parecendo um bêbado numa festa do hospício, cantando Ooooo que é a única parte que você sabe da música Wavin'flag.
E o jogo continua, te matando e ressucitando novamente a cada QUASE do adversário.
Um outro gol do Brasil acontece e você praticamente mata sua tia enforcada, enrolando a bandeira no pescoço dela.
Porem um banho de água fria e azeda se derrama sobre você quando a outra seleção marca o tão temido gol, fazendo-o pensar seriamente sobre suicidio. Assim vai até o resultado ganhador, óbvio na sua cabeça, e o apitar do fim da partida. Então seus músculos se descontraem e você sorri despreocupado pensando que essa copa vai ser mesmo uma moleza porque, se quer mesmo saber, nem os europeus e muito menos os americanos são páreos para torcedores como você.

domingo, 13 de junho de 2010

De meninos e meninas

Você a vê sentada lá, sozinha. Ela não tem muito a dizer e nem sabe direito o que fazer, mas ela tem algo de especial. Sim, você sabe que ela é especial apenas pelo jeito como seus olhos brilham quando a vê. Você entende dessa coisa de meninos e meninas.
Então os outros caras se aproximam e piscam para a garota sentada no balanço de madeira, mas os olhos dela só focalizam um rosto, e é o seu. São os seus olhos que a encantam.
É o seu sorriso que a faz parar de respirar e o seu toque que acelera seus batimentos.
E você adora isso; adora ver como ela se derrete quando está ao seu lado. Você simplesmente se delicia com o fato dela se sentir segura em seus braços, mesmo sabendo que ela nunca diz isso em voz alta.
Mas esta noite as coisas vão indo devagar. Esta noite a garota está sentada sozinha permitindo-se te olhar apenas em alguns intervalos de tempo e você, bem, está tentando aproveitar o momento e deixá-lo correr naturalmente.
Enquanto isso, a música soa de modo suave aos seus ouvidos e todos sabem que é chegada a hora.
Você se aproxima e pega na mão daquela que estava te esperando. Ela te deixa conduzir e brinca com um sorriso no canto dos lábios. E a partir de agora nada mais pode separá-los, porque seus braços estão presos ao redor dela e os seus olhos escravizados naquela beleza espontânea do momento.
Ela é a paisagem da sua noite.
E então vocês se beijam, e você sabe que tudo que fazia sentido já não faz mais e que seu mundo teve o núcleo substituido por essa pessoa que está agora em seus braços.
Você se pergunta que números são esses que aparecem na sua cabeça e descobre que são os batimentos cardíacos daquela que o faz hiperventilar.
O beijo se desfaz em forma de sorriso e, com os dedos entrelaçados, você sussurra sua promessa silenciosamente.
Porque ela é a mulher com quem você quer ter filhos. Ela é a menina que você quer levar ao lugar mais divertido do mundo. Ela é simplesmente aquela que você quer que seja sempre sua, e somente sua.
Na verdade das palavras ditas, você percebe a realidade e a aperta mais ainda contra seu peito.
Porque é ali que você quer estar. É exatamente ali, naquele lugar, que o garoto que a ama tem que estar para protegê-la e fazê-la ter plena certeza que também é o lugar dela, no seu peito, nos seus braços.
Porque é assim que a vida vai indo, rápido demais. Mas essa noite não exige horários para acelerar as coisas e lentamente você a gira em torno de si, deixando-a flutuar como a mais perfeita das flores e avançando conforme o ritmo da música. Não é preciso dizer que ela é a garota que você quer para sempre, não. Ainda não. Temos tempo, e nós estamos indo devagar esta noite.
E enquanto ela deita a cabeça em seu ombro perguntando-se silenciosamente que nome você daria a um filho, seus lábios movem-se sussurando inaudivelmente se ela aceita casar-se com você.
Porque agora ela é a sua garota, e você é o garoto dela. E isso é o que acontece entre meninos e meninas. Mas na lenta rapidez que isso tudo vai indo, amanhã ela será sua mulher e você, bem, você será aquele que a fará perder o ar.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

11 de junho

Hoje seria seu aniversário, mas é estranho. Porque o sentimento é o mesmo e cresce a cada dia, mas como se não tem mais para onde crescer? E fica cada vez mais intenso, como se nunca fosse ter um fim.
Mais concentrado; preso a um só lugar porque não tem mais para onde ir. E por que não transborda?
Você não está mais aqui para que eu possa colocar esse sentimento para fora, e mesmo assim ele não pára de aumentar, estourando os limites possíveis do que restou de mim.
E agora, a cada 11 de junho que passa, uma barreira interna é destruída enquanto essa concentração me alaga e me afoga.
Eu sei que não era para ser assim. E sei que só depende de mim parar esse desmatamento das minhas poucas raízes, mas este é exatamente o problema: Depender de mim.
Não gosto dessa palavra e detesto quando ela se aplica a minha pessoa mas o meu fracasso é total quando se trata de deixar o passado e viver o presente. Hoje eu sobrevivo, atinjo algum alvo fácil. Abro a porta dos fundos e não consigo evitar a foto sobre a mesa.
E então, tendo fracassado novamente, eu folheio aquele seu velho e tão surrado caderno de receitas e vejo quantas folhas em branco sobraram.


                                                              E quanto ainda havia para ser escrito.

"E eu me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama.
Nos teus pés, e ao pé da cama.
No tapete. Atrás da porta me escondi. Porque não consigo apenas deixar você ir.
Me descobri, e só para poder pedir que me cubras para sempre só mais uma vez."

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Má digestão

- É para lá que eu quero correr e me esconder. Lá onde os braços são quentes e o sentimento é o amor. Lá onde os olhos são sinceros e as palavras são de paz.
É para lá. Onde não há essa chuva ácida que parece cair só sobre mim. Onde não vai existir guerra e nem tristeza. Onde a felicidade brota de uma fonte inesgotável. Lá mesmo, onde o sorriso é verdadeiro.
Eu caminharia léguas. E não me importaria com as bolhas em meus pés cansados e nem com a terra embaixo de minhas unhas. Eu arrancaria forças para poder chegar, desde que houvesse um final feliz me esperando. Desde que eu chegasse lá, e descobrisse que valeu a pena todo o esforço.
Mas me parece um pouco (muito) injusto o fato desse lugar não existir.
E só o que eu ouço são palavras vazias me dizendo para seguir em frente. Mas para onde eu vou agora?
Não há mais caminhos e estradas para percorrer, e mesmo se houvesse, não há mais força de vontade o suficiente para fazer-me sair do lugar. Não sobrou nenhuma motivação, e a única razão que me faz estar aqui não tem força o bastante para me fazer também sair deste lugar. Me desculpe, mas eu preciso de um pouco mais do que essas palavras secas e um eu te amo de vez em quando.
É triste, mas é verdade. Não há um futuro promissor.
Então por que raios eu enfrentaria mundos e fundos? Por que eu caminharia dias e noites? Para que?
Eu quero um sorriso no final, quero a felicidade do 'viveram felizes' e não precisa ser 'para sempre'. E isso eu sei que não está ao meu alcance, como nunca esteve.
Desculpe mais uma vez, mas infelizmente eu não tenho mais forças para continuar seguindo por essa trilha que só me leva ao nada. -
E eu continuo com um sorriso disfarçado no rosto, um brilho bem ensaiado no olhar. Porque não quero fazer ninguém sofrer, não quero ser a pessoa que vai gritar aos prantos dizendo que não vê mais sentido nisso tudo, e que não há mais gosto na comida. Não quero ter que arriscar deixar mais uma pessoa das que sobraram, infeliz. Então eu sigo pelo mesmo caminho, com passos lentos e arrastados, afim de engolir tudo isso que está engasgado e mastigado na minha boca, pedindo para sair.
Porque a verdade é que eu sei que não vou fazer nada disso. Sei que essas palavras passarão vagarosas por minha garganta, e chegarão ao meu estômago causando-me má digestão.
Mas, mesmo assim, eu engulo. De novo.





Talvez seja pedir demais por algo que eu nem mereça tanto assim. E talvez o preço da felicidade e até mesmo o da esperança, seja mais alto do que eu pensava.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Doce infância

Quando coloquei o dvd para reproduzir não acreditei que aquela criaturinha minúscula e inquieta era eu.
A filmagem continha dois aniversários meus, de 1 e de 2 anos e assim que reconheci a música que tocava ao fundo do video, jorraram lembranças e flashs por todos os lados da minha cabeça.
O som era aquele mesmo tipo de todos os churrascos e festas em familia que fazíamos, pagode do tipo 'Raça negra' e as 'boas' músicas do tipo "a gente morou e cresceu na mesma rua como se fosse o sol e a lua dividindo o mesmo céééu.."
Os gritos e risos das crianças presentes eram insurdecedores mesmo pela televisão e a câmera pegava todos sem dó nem piedade, até mesmo aqueles que não queriam aparecer.
Eu parecia um bolinho de panos em meu vestidinho branco no primeiro aniversário. Todos chamavam meu nome, e cada chamado surgia de um canto da chácara, onde a festa estava correndo.
Engraçado ver isso tudo e ver essas mesmas pessoas de hoje, porém com um estilo um pouco peculiar para os anos atuais. As mulheres com os cabelos armados e despojados, os tamancos que deveriam ser moda na época e aquelas bermudas altas do tipo 'esquenta-coração', combinadas com um top colorido. Os homens todos de calça jeans alta, com um cinto preto e uma camisa meio largada.
Mais engraçado ainda me ver tropeçando e pulando pelos cantos da casa. Fugindo cada vez que alguém tentava me pegar no colo.
E os presentes então? Todos espalhados pela cama. Vestidinhos, ursinhos de pelúcia e sandalinhas coloridas. Senti as conhecidas gotas quentes escorrerem por minhas bochechas quando a câmera focalizou meu pianinho de brinquedo, que era em forma de bolo de aniversário. Aquele pianinho que tinha uma velinha que acendia e que tocava "Happy birthday to you" quando apertava o botão certo. Eu mal lembrava dele, e a única coisa que meu subconsciente guardou foi a música, e eu tinha certeza que o bolo era de morango também.
A sensação de déjà vú me atingiu tão fortemente que me desnorteou durante alguns minutos.
Os presentes, a música, as pessoas e aquela minha voz chatinha tagarelando. Olhei para aquela menininha do sorriso largo e das pernas tortas que se embolavam em si mesmas e não me reconheci. Havia um brilho vivo em seu olhar, e eu não consegui me ver através daqueles grandes olhos que mudavam de cor conforme a luz.
Estranho como era tudo tão simples, tão fácil e como parecia estar tudo numa perfeita ordem de uma doce infância.
Hoje, eu me vejo através da televisão e não encaro o fato de que aquela sou eu, só que numa versão menos complicada, em circunstâncias mais simples.
Não consigo aceitar que aquela época foi roubada de mim tão rápido. E que agora eu cresci, e não tenho mais meu pianinho para cantar para mim.
Eu sei que, talvez, eu só esteja com aquela nostalgia conhecida, mas ainda assim me dá um nó na garganta de saber que aquela felicidade simples, pura e leve que tínhamos pode não voltar nunca mais.
E o que restou disso tudo? A saudade. E a lembrança da melhor época que eu já vivi.