segunda-feira, 24 de maio de 2010

Muiteza

Seguindo um coelho eu acabei entrando em um buraco, e agora tudo está girando de forma desconexa.
Eu estou caindo.
Pianos inteiros, árvores, relógios e pirulitos de morango me atravessam.
Tudo que eu sou e que eu tenho cai comigo, num infinito espiral.
O teto está para cima, e eu estou de cabeça para baixo. Mas quem é esse do cabelo engraçado? ele não parece ser muito consciente das coisas.
Então, eu estou sendo levada por caminhos estranhos. Cogumelos alucinógenos? tudo está fora do lugar habitual e do tamanho normal.
Ele me diz que é o chapeleiro, e eu percebo logo que ele é de veras maluco. Ouço todos a minha volta traçando meu destino por mim e decidindo o que eu devo fazer.
Matar dragões e lutar contra exércitos? Mas por que exatamente eu faria isso? 
Eles discutem se eu sou a pessoa certa ou não. Eles me encolhem e me esticam quando isso lhes parece justo.
E tudo começa a ficar confuso demais, subindo a um nível de pressão que eu não posso lidar.
Eu estou sendo manuseada como se fosse um objeto, e todos me dizem o que fazer e aonde ir, como se eu fosse um robô.
As lágrimas correm por minhas bochechas e, assim como elas, eu fujo correndo por entre os seres incomuns, porque eu só quero voltar para casa.
Mas um sorriso me alcança. Um sorriso? Agora tomando forma de gato, ele me diz que eu tenho que voltar para enfrentar o mundo das trevas. Então agora eu sirvo?
Digo que ninguém perguntou minha opinião até agora, e que eu não vou fazer nada disso, porque essa luta não é minha.
Se eu estou com medo? E se eu estiver?
A voz daquele cabelo alaranjado assinála: Você está diferente. Você perdeu sua muiteza.
Não sei o que isso quer dizer, mas sinto-me ofendida.
Eu vou lutar, então. E veremos quem foi que perdeu a muiteza.
Num mundo subterrâneo, a guerra começa e eu sou mesmo uma guerreira.
Com uma espada na mão e uma armadura de ferro, eu ataco os meus inimigos e corto-lhes a cabeça.
Mas se eu sou apenas uma menina, como posso enfrentar tudo isso? Como posso lutar contra dragões?
As cabeças rolam por todos os lados, e o meu próximo passo agora é ir para casa.
Eles me perguntam se eu não quero ficar e quando digo que não, conchicham entre si que eu sou louca de querer voltar para aquele mundo em que vivo, sem fantasia.
Eu lhes explico que no lugar onde moro não tem mesmo nenhum chapeleiro maluco, não tem nenhum coelho que usa paletó e nem mesmo tem um gato que sorri, mas que, ainda assim, é de lá que eu venho e é para lá que eu vou voltar.
Porque como posso ficar nesse mundo que tudo é ilusão? E até seus sonhos e realizações são ilusões?
Eu preciso do concreto, da certeza da minha conquista, da chuva sobre minha pele.
Então, agora eu estou seguindo meu caminho e sinto pares de olhos em minhas costas. Tomo a estrada de volta para o buraco de onde eu caí, e ninguém se dispõe a me dizer como subir novamente.
Tudo bem, eu consigo ir sem ajuda.
Agarro as raízes das árvores com toda minha força e começo minha subida. Escalo pelas paredes espirais e cravo minhas unhas na terra, impulsionando-me para cima. E após um longo tempo, sinto minhas mãos tocarem a grama. A grama certa, do meu mundo. Aquela verde e áspera.
Agora eu estou apenas eu. Porque quando caí, levei tudo comigo e a força da gravidade me ajudou, mas ao voltar para cima, retornei sozinha.
Em pé, eu olho para meu vestido sujo de terra e de sangue de dragão. Observo meus pés descalços, minhas mãos calejadas e meus cabelos soltos e desgrenhados. Volto-me novamente para o círculo em aberto e grito bem alto:
Perdi minha muiteza não é?
E uma voz conhecida dos sonhos me responde risonha: Eu sempre soube que não.

Um comentário:

  1. Oi, Brenda! Procurei uma comunidade do Orkut, para a frase que mais explicaria ( para mim ), sobre "Minha Muiteza"... nada encontrei. Vc poderia cria-la? Ficaria muito grata. Beijos, com algumas muitezas, no momento se reorganizando. Juliana Galery

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