segunda-feira, 22 de março de 2010

Terceiro ano

Hoje é segunda feira e meu despertador tocou - Mais 10 minutinhos só -  Eu pulei da cama e voei pro banheiro. Atrasada, de novo! O leite virou tapete quando eu virei ele todinho no chão na pressa de sair.
Já é um costume, sabe.
O ônibus escolar passou buzinando e eu saí parecendo uma louca sem pentear o cabelo. Disse o Bom dia de sempre para o Andreo. Sentei do lado da mesma menina simpática de sempre.
Quando cheguei na sala, o pessoal da frente já estava lá.
Bom dia Noemi; Oi Gui; Gaaaby, tudo bem?; Eaí Torto?; Mônica, sua folgada!; - Brendinha, fica quietinha!; Oi Mari-a-mole; Bom dia Lary; - Uuh! Sou uma alga ; - Oi, brendinha!; Oooooooi, gabí.
Joguei meu material no chão e me joguei na carteira. É tudo sempre tão igual que eu não percebo o tempo passando de um jeito assim, meio anormal.
Eu falo oi e sorrio para algumas pessoas, no dia seguinte eu não cumprimento ninguém e percebo que aquela menina nova está me encarando. No outro dia, nós tiramos fotos e na aula seguinte, é prova.
Tudo vai simplesmente acontecendo numa ordem de fatores desiguais. E eu, bom, não vejo a hora de ir embora.
Mas de repente me vem um nó na garganta e eu fico assim, estática.
E agora está todo mundo assim, extasiado.
É um junção de todas as emoções possíveis e imagináveis, misturadas com o vazio do nada.
É um loucura pra acabar logo tudo isso e um aperto por saber que vai acabar. Uma alegria por saber que é um recomeço, e uma tristeza por saber que também é um fim.
É um sentimento tão estranho, uma mistura de tudo e nada que só um adolescente poderia sentir.
Quase uma insanidade. Nossa cabeça gira tão cheia de coisas, matérias e conteúdos que parece que vai explodir. Parece que não vamos aguentar chegar até o final e queremos desistir a toda hora. Ao mesmo tempo, tudo parece estar dizendo adeus. Todos os armários e bebedouros e até mesmo as carteiras. Todas as pessoas te olham como se nunca mais fossem te ver. É tudo tão intenso que choca, pasma.
É aquilo que todos estavam loucos para chegar logo.
É aquilo que quando chega, deixa todo mundo nesse estado de choque, com medo.
É o terceiro ano.
Enfim, aqui estamos. Nos perguntamos como foi que chegamos até aqui. Onde foi parar nosso giz de cera? E nossos cadernos de caligrafia?
Agora com a mesma intensidade da ansiedade que tínhamos para esse ano chegar logo, sentimos a tristeza por ele passar tão rápido.
E o que vamos fazer? Não haverá mais aquele friozinho na barriga no começo do ano para saber o que mudou na escola. Não haverá mais aquele abraço apertado nos colegas que você não viu duante as férias. Nem o conhecido desespero antes das provas. As carteiras estarão vazias e o despertador, bom, esse não tocará mais.
Os amigos também vão sumindo. Aquele com quem você conversava pouco, mas que parecia que era seu melhor amigo. Aquela que sentava do seu lado, e só abria a boca pra dizer bom dia. Aqueles todos que você gosta tanto que chega a ser amor, mas que não são tão seus amigos e que nem mesmo o telefone deles você tem.
Pensando nisso, eu senti umas poucas lágrimas escaparem por meus olhos. Imaginei como seriam meus dias sem o Oi tímido da Noemi. Como serão os meus dias sem a voz chata daquele professor estressado. Como serão os dias quando eu não tiver mais a Gaby pra perguntar depois de todas as provas: "E aí? MB né?"
Porque eu sei que aquelas boas e intimas amizades vão durar, pelo menos vão durar mais do que aquelas não tão próximas. Eu sei que aqueles amigos que andam comigo no intervalo vão continuar ali, talvez um pouco mais distantes, talvez com um pouco menos de contato, mas ainda assim, vão estar por ali.
Mas e aqueles outros? E os meninos do fundo, que sempre falam aquelas besteiras impossíveis de não rir? E os nerds, que costumam fazer piadas de nerd e nós nunca entendemos nada? E as músicas bem boas que nós cantamos em coral?
Não sei mais. Talvez daqui a alguns anos, alguém venha me contar que o Fi casou com a Isa, e que o Gênio virou professor de matemática.
Talvez um dia, eu fique sabendo que a Amanda se formou em artes e ilustrou a nova edição do livro da alice. Talvez também, eu veja a Gabizinha na TV liderando um movimento revolucionário. E quem sabe eu não veja até mesmo o Torto no jornal ganhando prêmios com alguma grande descoberta química.
E eu vou lembrar de como eramos todos muito bons juntos. De como parecia que a nossa sintonia era uma só e que o único motivo para nos dividirmos em panelinhas e grupos, era a timidez.
Vou me lembrar dos dias memoráveis. Vou inevitavelmente esquecer alguns nomes. E vou descobrir que nunca quis ter deixado essa época. Vamos todos descobrir isso. Descobrir que, mesmo aqueles com quem não nos dávamos, farão falta.
Enquanto o tempo vai se esgotando, vamos nos despedindo silenciosamente uns dos outros. Em cada piada, em cada olhar e em cada sorriso, ouvimos o adeus mudo na garganta das pessoas. Esperando que conosco seja diferente e acreditando que ainda viveremos muita coisa juntos.
Infelizmente, é só para nos reconfortar, porque a separação é inevitável e sabemos que a maioria desses que estão sentados agora na nossa frente, nunca mais veremos. Ainda assim, nos olhamos com esperança, tendo a plena certeza que tudo valeu a pena e de que nada nunca vai apagar essa época do nosso coração.
Estranho dizer isso, mas amo todos vocês e a saudade já começa a me sufocar desde agora.


Hoje é segunda feira, e meu despertador não tocou.





"Mudaram as estações, nada mudou.
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu, ta tudo assim tão diferente.
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre,
sem saber que o pra sempre, sempre acaba."

2 comentários:

  1. BRENDINHA, ta muito-o bom mano; e eu choreeeei lendo.
    Não quero que esse ano acabe nunca ♥

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