sábado, 30 de janeiro de 2010

Daddy's little girl

Com o material nas mãos eu me despeço dele, dizendo que volto logo.
A mochila já não esta mais tão pesada quanto antes, e eu já não uso mais uniforme.
Pai, agora é a faculdade, tente entender que eu não levo mais lancheira.
Mas ainda assim eu vejo as poucas lágrimas causando enchente em seus olhos verdes, enquanto aquela lancheirinha da barbie já está pronta em suas mãos..
Pai, não precisa me levar, porque agora eu posso ir sozinha com meu carro novo.
E mesmo assim, eu vejo ele tentando esconder as chaves e deixando escapar por seus dedos sem querer aquele antigo chaveiro que compramos em Holambra.
Não precisa comprar lápis coloridos, pai. Eu já não preciso mais deles.
Pai, eu não gosto mais de melissa e não uso mais presilhas das meninas super poderosas no cabelo.
Pai..PAI. Eu cresci. E não sou mais aquela criança assustada em seu terrível primeiro dia de aula. Fique tranquilo, porque eu vou ficar bem.
Com um aceno de cabeça e um sorriso amarelo ele me dá um beijo e diz as conhecidas palavras "Vá com Deus, Molly".
E depois de todo esse meu discurso para explicar que não sou mais a garotinha dele, eu chego em casa chorando mais uma vez, como na primeira série!
Com os olhos vermelhos e inchados, corro para os braços quentes e protetores dele, e enxugo meu rosto molhado em sua camisa macia.
Posso sentir seu corpo se curvando protetoramente contra o meu, e me ajeitando cuidadosamente em seu colo enquanto ouço ele cantar a nossa doce canção cor-de-rosa bebê, pensando que talvez nunca mude, e eu seja sempre a garotinha medrosa correndo para ele.

"A garotinha do papai
Pinta o mundo com sua várinha mágica
A criancinha do papai
Traz vida nova para minhas manhãs
A garotinha do papai
Coloca um lacinho no meu coração
A criancinha do papai
Ela é parte de mim
Quando chego em casa
Molly sorri com o alvorecer
E ela irradia um brilho por toda sua aura
Quando os dias vão indo ruins
Nada está errado enquanto Molly sorri."

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Heartstone

Primeiro vem a rocha, dura, consistente, sólida. A rocha que, com o tempo e com a agua, vai se desgastando e conforme os baques que vêm, ela se transfoma em pedra.
Pedras pequenas, médias e grandes. Estas que também não duraram muito tempo.
Estas que foram de grãos à partículas, peneiradas, comprimidas, transformadas em areia, reduzidas ao pó.
Mas isso é a analise de uma pedra, que é dificil de se despedaçar, praticamente impossivel de se destruir.

E agora eu penso, de quantas formas pode-se partir um coração?
Em quantos pedaços pode-se dividi-lo?
E, mesmo depois de desmantelado, despedaçado, desorientado e em farelos..ainda assim, ele consegue se repartir uma vez mais.
Então, quantos grãos de areia são precisos para preencher um coração? Quantas estrelas no céu?
Talvez nem areia e nem estrela, somadas, conseguiriam juntar as migalhas que esse orgão deixa cair.

E, no momento, poderia o meu partir-se novamente?



Talvez já nem haja mais divisão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Criança selvagem

Ela vai andando, como se ninguém mais estivesse olhando.
Vai, desfila com suas meias arrastão e suas idéias loucas.
O mesmo lápis preto escorrido pelos olhos, o mesmo batom cor de sangue e o mesmo riso debochado.
Rebola e desbola com a mesma elegancia.
Na boca não leva só a cor, tem também o sabor.
É como um morango doce demais, com um toque de veneno amargo. Lábios com strass.
Ela te olha, te ronda, te choca.
Não tem limite, não tem razão. Só o gostinho de ver todos os pares de olhos grudados nela.
Desfila, desanda.
Com passos longos e lentos. Sem pressa, sem pressão.
Ela sabe que o único propósito é chamar a atenção.
Usa e abusa.
Impressiona, intimida, assusta.
Com suas roupas curtas e descoladas, parece um tipo certo de garota errada, mas você sabe que ela arrasa mesmo.
Porque seus saltos agulha não cegam olhos alheios. Seus anéis não machucam. Suas unhas vermelhas e afiadas não arranham.
Ela não precisa do errado pra provar que é certa.
Ela só quer diversão. Só quer intimidar, saber ousar e brincar sem perder a essência. Porque ela pode.
Sim, você sabe que ela pode.
E daí se sua saia é desfiada, com cores loucas e sua meia é furada.
E dai se a blusa é rasgada e o cabelo é rebelde.
E mesmo se o salto não fosse alto, e o batom não fosse vermelho.. ela continuaria sendo ela mesma.
Com idéias ousadas, roupas erradas.
Porque ela não é fruta, mas também não é puta.
É só uma menina rebelde, sem nenhuma margem.
Garota mimada com pose de criança selvagem.


Um dia talvez ela mude, mas ele sabe que, no fundo, gosta desse seu jeito meio moribundo.