quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Muda

O papel continua o mesmo, branco e mudo a me esperar e olhando-me como quem acusa. O que você quer que eu faça? Eu simplesmente cansei dessas palavras repetidas e desses mesmos temas, e não me culpe por eu não saber mais lidar com isso. Não me culpe por eu não saber mais como preencher esse espaço e essas linhas.
Saiba que eu não gosto mais disso do que você. Eu não gosto desse branco vazio. Não gosto de não gostar mais dos meus textos e de não ter mais frases boas. Afinal, o que anda acontecendo por aqui?
Eu não sei traduzir o sentimento estranho que andou me consumindo nesses tempos. Eu canso só de pensar em tentar explicar essa sensação inexplicável. E como fazemos quando isso acontece?
Eu simplesmente travei, como se fosse uma porta trancada com a chave jogada fora. E o que mais me frustra é não conseguir colocar isso em ordem. Mas eu não posso e não quero perder a única coisa que me fez feliz nesses tempos, não posso e não quero deixar minhas palavras bonitas que restaram se esvoaçarem junto ao vento.
Será que minha pequenina parte que prestava não vai mais prestar? Eu dediquei tudo o que sabia e o que podia para chegar até aqui e descobrir que eu poderia, enfim, contribuir com palavras. E se as palavras eram as únicas coisas que tinha a oferecer, porque não oferecê-las? Mas então, depois de me mostrarem a maravilha de seus significados, elas resolveram me deixar. Minhas próprias palavras decidiram deixar-me muda. E agora? Eu queria poder ter alguém para perguntar se um dia isso vai passar. Mas e se não passar?
Por favor, não me deixem também, porque vocês são o que restou para mim. Venham para ficar, desta vez. Venham para fazer com que eu e o papel façamos as pazes, porque eu já não aguento mais as informações guardadas dentro de mim. Não aguento mais toda essa angústia de saber que existe nome para o que me cerca e sou eu que não o encontro. Voltem para mim e não me deixem como todo o restante fez, por favor, só não vão embora.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Superficialmente rasa

- Tudo bem?

(Não. Ta tudo uma droga. E eu detesto esse calor insuportável que tem feito esses dias. Você já reparou como o mundo está de cabeça para baixo? Eu vejo crianças sendo torturadas e animais sendo mortos. Eu vejo indiferença no olhar das pessoas e ouço apenas o barulho de tiros. Não gosto dessas caras fechadas, desses dias corridos, dessas lágrimas falsas. Você ainda me pergunta se está tudo bem? Não gosto de ter que mentir que estou bem, mas que saída tenho eu? Como vou te explicar o quanto isso tudo tem me entristecido? E por que você entenderia? Seria uma contradição minha contar meus problemas quando eu acabei de citar a quantidade de conflitos que já existem no mundo. E o que eu faço? A verdade é que eu não estou bem, que eu quero explodir. Mas a verdade nem sempre é agradável e ninguém está disposto a conversar sobre isso. E se eu disser que cansa essa futilidade toda dessas conversas mornas que sempre perguntam as mesmas coisas inúteis esperando respostas pré-estabelecidas? E se eu disser que não estou bem e você, por tradição, me perguntar porquê? Eu sei que não quer mesmo ouvir minha ladainhas; sei que você não está realmente ligando para o que acontece com o resto da população mundial, assim como todas as outras pessoas. Ninguém liga para ninguém.  Sei também que você arranjaria uma maneira de fugir enquanto eu explico a causa disso.
Seria tanta tolice minha dizer isso à você? E, quer saber, claro que seria. Seria bobagem tentar dizer qualquer coisa que não seja confortável a seus ouvidos. Porque parece que ninguém se importa mesmo, todo mundo age com esse mesmo superficialismo sem se preocupar com isso. E me irrita, mesmo que eu esteja errada em ser assim. Me irrita que essas conversas sejam rasas, sem grandes conclusões e morais por trás. Então, tentando deixar para trás essa minha mania de ser extremamente densa e profunda, eu apenas digo o que você espera ouvir; digo o que todo mundo quer escutar para não precisar pensar demais em coisas que não lhes interessam e tento ser mais rasa, nem que seja apenas superficialmente)

- Tudo e você?

Garotas grandes não choram

E talvez, essa minha ansia por liberdade, independencia e vida própria seja apenas a causa de meu medo. Porque por mais adulta que eu tente ser, e por mais racional que eu tente agir, ainda assim sou criança.
Tenho inseguranças quando não vejo um rosto conhecido. Tenho medo do que há por trás do armário. E quando me vejo só, tenho vontade de gritar pelo nome que costumava ser meu refúgio; e que ainda é. 
Mas o relógio não me deixa mentir, e eu não permito enganar-me mais. O tempo passou, e me levou junto. Então aqui estou com minhas decisões a serem tomadas, caminhos a serem percorridos e problemas a serem resolvidos. Agora aqui estou eu, sozinha comigo mesma, e repetindo em minha cabeça que é só o escuro, e dele não vai sair nenhum monstro. Mesmo querendo correr amedrontada, eu me obrigo a permanecer parada, controlando-me. Eu reconheço que cresci e que não posso mais te deixar resolver minha vida, como era antes. Tenho que trilhar minha própria estrada mesmo sabendo que, de vez em quando, eu vou dar uma fugidinha para seus braços acolhedores. Mas isso não poderá acontecer com a mesma frequencia mais. A vida continua comigo e daqui para frente seremos apenas eu e minhas conclusões, meus passos perdidos e minha circunstância. Enfrentando as consequencias de meus erros e aprendendo com meu tropeços, eu sigo sozinha. 
Estou começando a andar com meus próprios pés, aprendendo a caminhar carregando meus pesos comigo e não deixando mais minhas malas nas suas costas. É assim que tem que ser agora. Já estava na hora de nossas mãos se separarem e eu atravessar a rua sem sua orientação. É só que eu estou insegura, com medo e cheia de incertezas. Mas não quero ver seus olhos preocupados, porque quero vê-los sorrindo com orgulho. Mesmo tendo plena consciencia de você me olhando, acenando com uma mão e desejando com todas as forças para que dê tudo certo, eu quase fracasso e corro de volta. É, eu sei que isso é tolice minha. Ainda assim, quero que saiba que eu estou até feliz de saber que consigo lidar comigo mesma. E eu vou te deixar só para poder continuar com minha vida, a partir do ponto em que você a entregou totalmente a mim. Vou sentir saudades e as lembranças sempre vão doer um pouco, mas agora é a hora de aceitar as mudanças. Agora é a hora de ser gente grande e deixar para trás esses medos infantis. É o momento de trocar as lágrimas por conquistas, de aprender ser forte e seguir em frente. É hora de crescer.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O que nós somos

Amar é coisa de bobo. Porque é isso que sei, é isso que eu sinto.
Nós dois conversando, o meu riso debochado e a sua mão flutuando pela janela do carro. É o que nós somos. Quando eu cedo espaço em mim para caber você. É isso que é, independente de como chamam por aí.
Amor, afinal, não é nenhuma palavra importante. É só uma entre tantas outras. "Eu te amo" não é especial, no fim das contas. Mas você segurando minha mão, isso é diferente. Você me carregando nas costas e me roubando um beijo, isso é especial.
E é isso que eu sei, não é simplesmente amor. Amor é pouco demais, pequeno e fácil demais.
Somos nós e o modo como nos tocamos. Eu e você, e o encaixe perfeito de nosso braços. É isso que te torna tão meu. Não o amor.
Não esse amor que não pode significar tanto sorriso, tanta lágrimas, tantas brigas e tanta compreensão mútua. Não essa mera palavra curta e sem grande abrangência, que só absorve carinho, além de si mesma.
Nossas mãos entrelaçadas. É o que me torna tão sua. Não esse conjunto de quatro letras, que não se estende para a amizade que cultivamos, para a raiva - algumas vezes - ou para a quantidade de equilíbrio que precisamos.
Amar é uma palavra vaga demais para caber tanto significado, um sentimento pouco demais para abrigar tudo isso que nós temos. E talvez seja por isso que eu gosto tanto de você. Porque você não simplesmente ama, você é tudo que o amor não consegue agregar, você é o que as palavras não conseguem distinguir. E assim como eu sou, você é, apenas.  
E ser é muito melhor.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

'[o fim do] Terceiro ano'

Esse texto já foi postado aqui, mas estou postando de novo com algumas modificações, já que agora o fim realmente chegou. E como já dizia o torto, "Estou meramente praticando dizer adeus a vocês"


Hoje é segunda feira e meu despertador tocou - Mais 10 minutinhos só - Eu pulei da cama e voei pro banheiro. Atrasada, de novo! 
O ônibus escolar passou buzinando e eu saí parecendo uma louca sem pentear o cabelo. Disse o Bom dia de sempre para o Andreo. Sentei do lado da mesma menina simpática de sempre.
Quando cheguei na sala, o pessoal da frente já estava lá.
Bom dia Noemi;
Oi Gui;
Gaaaby, tudo bem?;
Oi Torto?;
Mônicããão!;
- Oi Marianão!;
Bom dia Lary;
Oooooooi, gabí;
Oi, barata.
Joguei meu material no chão e me joguei na carteira. É tudo sempre tão igual que eu não percebo o tempo passando de um jeito assim, meio anormal.
Eu falo oi e sorrio para algumas pessoas, no dia seguinte eu não cumprimento ninguém e percebo que aquela menina do outro lado da sala está me encarando. No outro dia, nós tiramos fotos e na aula seguinte, é prova.
Tudo vai simplesmente acontecendo numa ordem de fatores desiguais. E eu, bom, não vejo a hora de ir embora.
Mas de repente me vem um nó na garganta. E agora está todo mundo assim, extasiado.
É um junção de todas as emoções possíveis e imagináveis, misturadas com o vazio do nada.
É uma loucura para acabar logo tudo isso e um aperto por saber que vai acabar. Uma alegria por saber que é um recomeço, e uma tristeza por saber que também é um fim.
É um sentimento tão estranho, uma mistura de tudo e nada, que só um adolescente poderia sentir.
Quase uma insanidade. Nossa cabeça gira tão cheia de recuperações, matérias, vestibulares e conteúdos que parece que vai explodir. Parece que não vamos aguentar chegar até o final e queremos desistir a toda hora. Ao mesmo tempo, tudo parece estar dizendo adeus. Todos os armários e bebedouros e até mesmo as carteiras. Todas as pessoas te olham como se nunca mais fossem te ver. É tudo tão intenso que choca, pasma. E tudo começa a virar 'último'. 'Ultimo' trabalho, 'ultima' vez que você está entrando naquela sala, 'ultima' olhada nos bancos, funcionários, professores e alguns colegas.
E embora seja aquilo que todos estavam loucos para chegar logo, quando chega, deixa todo mundo nesse estado de choque, com medo.
É o terceiro ano.
Enfim, aqui estamos. Nos perguntamos como foi que chegamos até aqui. Onde foi parar nosso giz de cera? E nossos cadernos de caligrafia?
Agora com a mesma intensidade da ansiedade que tínhamos para esse ano chegar logo, sentimos a tristeza por ele passar tão rápido.
E o que vamos fazer? Não haverá mais aquele friozinho na barriga no começo do ano para saber o que mudou na escola. Não haverá mais aquele abraço apertado nos colegas que você não viu duante as férias. Nem o conhecido desespero antes das provas. Não haverá mais dedos cruzados para a escolha dos seus professores. As carteiras estarão vazias e o despertador, bom, esse não tocará mais.
Alguns amigos também vão sumir. Aquele com quem você conversa pouco, mas que tem um sintonia com seus pensamentos. Aquela que senta do seu lado, e só abre a boca pra dizer bom dia. Os meninos que não perdem a piada e nem a chance de te zoar. Aqueles todos que você gosta tanto que chega a ser amor, mas que não são tão seus amigos e que nem mesmo o telefone deles você tem.
Pensando nisso, eu senti umas poucas lágrimas escaparem por meus olhos. Imaginei como seriam meus dias sem o Oi tímido da Noemi. Como serão os meus dias sem os chiliques do Vilarinho e as piadas idiotas do Mesquiari. Como serão os dias sem as conversas rápidas com a Flávia, o Gabriel, o Gênio, o Takano, e o pessoal do outro lado da sala, que, mesmo que eu não tenha tanto contato assim, sei que farão uma falta absurda. Como serão os dias quando eu não tiver mais a Gabrielle pra perguntar depois de todas as provas: "E aí? MB né?". E como será a vida, quando não houver mais o Torto para tirar com a minha cara ou o barata lendo mangás para eu dizer que ele está derretendo o cérebro? Como será a vida sem as meninas distribuídas em quatro carteiras a minha volta, passando bilhetes, colas e coisas de uma para outra? Já posso sentir, desde agora, um desfalque dentro mim.
Porque eu sei que aquelas boas e intimas amizades vão durar, pelo menos vão durar mais do que aquelas não tão próximas. Eu sei que aqueles amigos que andam comigo no intervalo vão continuar ali, talvez um pouco mais distantes, talvez com um pouco menos de contato, mas ainda assim, vão estar por ali.
Mas e aqueles outros? E os meninos do fundo, que sempre falam aquelas besteiras impossíveis de não rir? E o 'bora domingo beber'? E as pérolas da Camylle? E os nerds, que costumam fazer piadas de nerd e nós nunca entendemos nada? E as músicas bem boas que nós cantamos em coral? E nós todos, 3º A inteiro, como ficaremos separados? Sabe, o que vamos fazer quando não precisarmos mais bolar roteiros de ultima hora para entregar para a Gisele? O que faremos com as colas e os gabaritos, passados e repassados pela sala inteira? Me digam, o que vai acontecer com nossas boas e velhas risadas? Com as palhaçadas da Lary? Ou os infindáveis debates que quase sempre causavam polêmica na sala? E a "dancinha da vitória" da Gabi? O que vai acontecer com a moleza da Mari sem as nossas mãos para apertar? E as agressões da Mônica às outras pessoas, quem vai conter? Quem vai dizer ao Torto que ele está derretendo o cérebro? E quem vai bagunçar o cabelo do barata?
Não sei mais. Talvez daqui a alguns anos, alguém venha me contar que o Gênio virou professor de matemática. Ou talvez eu veja fotos tiradas pela Lary em algum jornal ou revista.
Talvez um dia, eu fique sabendo que a Amanda se formou em artes e ilustrou a nova edição do livro da alice ou que o Jão se tornou escritor de mangás, ilustrados também pela Amanda. Talvez também, eu veja o Barata na TV falando algo sobre jogos eletrônicos. E quem sabe eu não veja até mesmo o Torto no jornal ganhando prêmios com alguma grande descoberta química, logo ao lado de uma matéria sobre algum movimento revolucionário liderado pela Gabi.
E eu vou lembrar de como eramos todos muito bons juntos. De como parecia que a nossa sintonia era uma só e que o único motivo para nos dividirmos em panelinhas e grupos, era a timidez. Porque só conhecemos as pessoas direito e vemos o quão boas elas são, quando estamos prestes a deixá-las e, mesmo que isso seja injusto, é a maior certeza que podemos ter na vida.
Enfm, vou me lembrar dos dias memoráveis. Vou inevitavelmente esquecer alguns nomes. E vou descobrir que nunca quis ter deixado essa época. Vamos todos descobrir isso. Descobrir que, mesmo aqueles com quem não nos dávamos, farão falta.
Enquanto o tempo vai se esgotando, vamos nos despedindo silenciosamente uns dos outros. Em cada piada, em cada olhar e em cada sorriso, ouvimos o adeus mudo na garganta das pessoas. Esperando que conosco seja diferente e acreditando que ainda viveremos muita coisa juntos.
Infelizmente, é só para nos reconfortar, porque a separação é inevitável e sabemos que a maioria desses que estão sentados agora na nossa frente, nunca mais veremos. Ainda assim, nos olhamos com esperança, tendo a plena certeza que tudo valeu a pena e de que nada nunca vai apagar essa época do nosso coração. 
Porque o tempo vai passar, a memória vai esquecer e as fotos vão se perder, mas a maior lembrança vai ficar no coração.
E mesmo que hoje as diferenças sejam grandes, tenho certeza que, se pudéssemos escolher uma sala entre todas, seria essa: 3ºA 2010 - ETECAP.
Mesmo querendo gritar, pedir e implorar para que não vão embora, eu só digo um "Adeus", na esperança de que sirva como "Até logo" e torcendo para que a vontade de nos reencontrar seja maior que a saudade que deixamos uns nos outros.
Estranho dizer isso, mas obrigada por fazerem parte da minha vida. E mesmo que não pareça; mesmo que vocês duvidem disso; mesmo que eu não tenha citado alguns nomes aqui; Digo e repito como uma única certeza na vida: amo todos vocês e a saudade já começa a me sufocar desde agora.
Hoje é segunda feira, e meu despertador não tocou.


[ Video turma A 2008/2010 - ETECAP]




PS: Vocês são a coisa mais bonita que eu poderia levar comigo.

" E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz                                         Teremos coisas bonitas pra contar.                                                                                          E até lá vamos viver, temos muito ainda por fazer                                                                  Não olhe pra trás, apenas começamos, o mundo começa agora!" 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sobrevida

Não sai. Engasga. Pára antes que possa começar a existir.
Bloqueia a passagem e não arreda o pé. Não tem início e não tem fim. É para sempre. Não muda, não se mexe, não se altera. Deita e não levanta. Mata e não ressurge. Gruda na garganta, nos pulmões e envenena o coração. Espanca por dentro e se recusa a se retirar, enquanto ela está parada com os olhos desfocados e olheiras fundas.
Alguém que está passando na rua pergunta curioso: O que ela tem?
Um homem velho responde: Ela morreu.
E o primeiro alguém fala de novo: Mas ela ta andando, e comendo, e respirando.
O velho, então, muito sábio, diz: Isso não quer dizer que ela vive.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Palavras ao vento

Eu poderia escrever para vocês, mas estaria mentindo. As palavras são escritas para me libertar e, ainda que eu coloque nelas o sentimento que a outro pertence, elas serão sempre para mim mesma.
Porque, talvez, escrever seja, enfim, uma escapatória. Talvez eu não esteja beneficiando ninguém além de mim mesma, com essas palavras sincronizadas. E ainda seja como dizem que é, seja salvação; a minha própria salvação. Mesmo que haja pouco sentido e muita contradição. Mesmo que as palavras de outros corações, de outros textos e de outras pessoas falem tanto por mim e para mim, talvez o meu modo de escrever não atinja mais ninguém.
Então eu escrevo, talvez, para poder ter a chance de ser inocentada desse meu egoísmo. Para poder ter a chance de ser absolvida ao colocar não só os acertos para fora, mas também os erros.
Escrevo, quem sabe, para que possa apagar aquilo que não for coerente e não me agradar. Coloco no papel para poder transformar e moldar o que eu sinto até que esteja bom o bastante para voltar para mim.
Mas talvez eu só seja perdoada quando aprender a deixar as palavras fluírem através de mim em prol de outra pessoa, não para minha própria liberdade e salvação, mas para tentar iluminar outro caminho e guiar outros corações.
E, se quer saber, talvez sejam apenas palavras, e não traduzam certo o que era para elas representarem. Apenas palavras perdidas ao vento; jogadas ao mar, sem qualquer valor.
Talvez, quem sabe, seja só ilusão nossa pensar que as pessoas ao redor entendem o que escrevemos; o que realmente queremos dizer através das linhas. Na verdade, não me importa tanto assim; apesar do meu encanto pela escrita, eu sei bem que certas coisas não servem para escrever. Porque, mesmo que o lápis risque com força, o papel não entenderia a intensidade de alguns sentimentos, e as palavras jamais poderiam expressar certas emoções.
Então, por mais que eu tente ajudar alguém com meus textos e minhas teorias, eu sei que é preciso mais que palavras para descrever o que habita dentro de um coração e mais, muito mais, que lápis e papel para poder confortar uma alma. E espero que vocês saibam disso também.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Adolescente

Tenho que confessar que não me incomodaria em não ter rugas, mas não é esse o principal motivo para essa agonia toda que anda me rondando. O que significa ter 18 anos para você? Independencia? Ou talvez liberdade? Ouvi dizer que é apenas o começo da vida, da verdadeira vida. Mas o que seria essa vida? Se for trabalhar, casar, ter filhos e viver supostamente feliz, me desculpe, mas eu dispenso. 
Eu quero o sangue fervente correndo por minhas veias. Quero cometer erros e ter o direito de cometê-los, afinal o que mais seria essa fase senão a experimental? Quero agir de forma desconexa e não ser culpada por isso. Sim, eu quero ser rebelde sem causas e não ter que lidar com as conseqüências. Não quero ouvir que eu sou grande o bastante para resolver meus próprios problemas, ou que já sou velha demais para usar meu all star sujo. Eu quero ser adolescente e justificar a essência dessa fase. Poder falar gírias e gingar por aí sem ter que me preocupar. Irresponsável e teimosa. Eu quero gritar quando tiver vontade sem ter que parecer uma louca na menopausa e ouvir as pessoas em volta dizerem que "tudo bem, ela é só uma adolescente". Cantar músicas estranhas e inventar novos estilos. Por que uma mulher de mais de 20 anos, não pode ter o cabelo azul? Sabe, eu estou bem feliz com essa minha idade, e não quero que ela fique para trás. Quero ouvir as pessoas colocando a culpa por esse meu comportamento inadequado na adolescencia e somente nela. Ser insana e falar palavras sem sentido. 
Quero criticar a sociedade, fazer a revolução e não ter que me justificar, afinal, eu sou uma adolescente e é assim que tenho que ser, para sempre. Eu quero não precisar de motivos para surtar. Não precisar de razões para explodir. Quero poder pintar minhas unhas de cores flúor apenas porque é legal, sem ter que parecer aquelas senhoras querendo dar uma de eu sou jovem e antenada.
Eu gosto de poder me expressar e me revoltar com a vida. Gosto de ser insana e contraditória, as vezes. Gosta dessa falta de responsabilidades e contas a pagar. Porque eu gosto mesmo é de chocar essa sociedade passiva de sorrisos amarelados e mostrar que nós somos jovens e que vamos mudar o mundo. Eu quero continuar aqui, com meu jeans rasgado e minha regata desbotada. Continuar extrapolando e extravasando. Extravagando. Sabe, continuar com essa ânsia por liberdade e independencia. Com essa ânsia por revolução e por colo de mãe. 
Eu quero ser assim para sempre. Ser chorona, explosiva e intensa como uma adolescente deve ser. Nem sempre ser levada a sério, nunca ter cem por cento de certeza e viver em constante dúvida, delirante paradoxo e inegável anormalidade. Eu quero mesmo ser adolescente, ser chamada de louca e sair por aí inconseqüente. Adolescente que reclama, que contesta, que briga por besteira. Que bate o pé e chora de raiva e não de tristeza. Adolescente que se contradiz, se estranha, se ensina as porcariadas. Eu quero. 
Quero, quero, quero. Preciso e anseio. Na íntegra, completa e totalmente, incondicionalmente e plenamente. Essencial e fundamentalmente, eu quero é ser adolescente.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Mariana

Era Mariana não pelo nome sozinho, mas porque a mãe queria Maria e o pai gostava de Ana.
Mariana que andava na rua, por causa da leveza herdada da mãe, mas se agarrava às calçadas devido a segurança do pai. Teimosa e birrenta, um retrato falado daquela que a colocara no mundo, mas compreensiva e obediente, só para contrariar. Bossa nova e rock'n'roll. A mistura mais doce, feita do mais amargo sabor. Mariana que era duas em uma só. O alcool do pai com o açúcar da mãe.
A mãe com o sorriso leve, e o pai sempre sério, e Mariana, que nada mais era além da soma dos pais, mantendo-se bipolar.
Ela que era a Mariana, mas não deixava de ser um pouco mais Maria e um pedaço maior de Ana. O pai que era bravo, e a mãe que era sossegada, e, juntos, levavam Mariana a ser contraditória.
A mãe que insistia no sim, e o pai que trovejava um não, enquanto Mariana, que era a junção pura dos dois, sempre pensava: "E se..?"

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Eu to tentando

Desculpa, meu menino. Eu tenho mentido para você. Eu tenho mentido para todas as vozes que insistem em perguntar se está tudo bem. Tenho sido falsa, e tenho forçado sorriso quando não quis sorrir.
Desculpa esse meu jeito estranho desses últimos tempos, não vou tentar justificar. Sei que não adianta eu mascarar isso e colocar a culpa nos problemas, na vida ou no calor insuportável que tem feito esses dias. Sei disso, porque a unica culpada sou eu. Se não quero mais ter que andar, nem rir e nem mesmo levantar da minha cama; não quero mais ter que fazer nada. Só eu mesma sou responsável por essas atitudes e não vou mais fugir dessa responsabilidade que só cabe a mim.
Sabe, me dá um tempo. Mesmo que seja pedir demais, e eu sei que é, depois do tanto que eu te deixei sozinho. Mas, me dá um tempo e acredite: eu to tentando. Espera por mim, que eu já vou chegar até onde você está.
Eu to tentando dar um jeito nisso. Tentando não deixar um relacionamento estragado afetar outro que é bom. Tentando parar de ver o lado ruim das coisas e, mais que tudo, tentando encontrar o lado bom que parece não existir.
Então só me perdoa por enquanto, que eu vou voltar a ser como devo ser. Eu vou voltar a te ajudar com seus conflitos, vou voltar a te aconselhar. Eu prometo que eu vou ser uma amiga decente de novo e vou cumprir com meu papel. Vou estar ao seu lado novamente, e vou voltar a te acompanhar nas festas.
Só me deixa colocar as coisas no lugar, para eu poder dizer que estou bem de verdade, e não precisar mentir mais. Eu sei que, durante todo esse tempo, você percebeu que havia algo estranho em mim. Percebi que você notou a falta da minha risada escandalosa, e a ausência dos meus trocadilhos idiotas. Mas eu só estou tentando consertar as coisas, menino. Estou tentando me achar e ver se paro de me perder.
Então, só diz que me perdoa e que não vai me deixar, mas vai estar esperando por mim pelo tempo que eu precisar. Porque eu sei que só preciso respirar um pouco e tirar minha cabeça de debaixo d'água. E depois que isso tudo passar, eu vou te recompensar com sorrisos verdadeiros e minhas piadas mal formuladas que você tanto gosta. Vou te abraçar com força, como já não faço a algum tempo.
E eu prometo, como a única promessa que está ao meu alcance de realizar, que estou tentando. E para isso preciso da certeza que você me entende, e da convicção que estarás aqui de braços abertos para quando eu retornar.
Então só me deixa voltar a mim mesma, para que eu possa voltar para você. Deixa, menino.
Deixa eu voltar a ser eu, para poder voltar a ser sua.

domingo, 28 de novembro de 2010

Tem muito, pouco.

O que ela tem? O que ela tem? Não tem nada que precise e tem tudo que não quer.
O que eu tenho? O que você tem? Tenho o mesmo que ela. Tem aquilo que tiver.
Tem mais rascunho do que texto pronto. Tem mais rabisco do que pintura. Tem mais melodia do que letra. Tem menos dança em mim. Tem mais música do que palavra. Tem palavra querendo sair. Tem canção tocando de dentro para fora.
Tem sentimento achando que pode acontecer. Tem problema com mania de grandeza. Tem excesso de informação. Tem falta de ambição.
Tem pó de fé querendo dissolver em água de dúvida. Tem coração querendo vingança e chorando mudanças. Tem o que não era para ter, e foi embora o que tinha. Tem pensamento sem tradução. Tem neologismo querendo dar nome à emoção.
Tem cheiro saboroso e gosto cheiroso. Tem menos metáforas e mais sinestesia. Tem mais português do que eu achava que tinha. Tem tudo que era para ter. Tem mais coerencia, tem menos sanidade. Tem nada do que poderia ter.
Tem o que tiver. Tem mais incerteza. Tem.
Tem mais intensidade. Tem mais o que? Tem mais verdade. Tem mais perguntas e menos respostas. Tem mais apostas. Tem sobra de falta. Tem falta de amor. E tem saudade.
Ela tem muito. Ela tem muito pouco.
Tem mais confusão e menos clareza. Tem menos. Menos eu. Tem menos eu dentro de mim, porque não cabe.
Porque não cabe?



Sem sentido, nexo ou razão.  Mas traduz o que eu preciso que traduza.

sábado, 27 de novembro de 2010

Minha maior saudade

Daquelas que não se esquece, e que sente uma falta absurda.


Jack que virou Banana - para completar nossa salada de frutas, comidas e animais - que virou Poste - por não cair NENHUMA vez quando tentávamos derrubá-la para fazer montinho - e que tornou-se eterna. Infinita dentro de mim, como todas as outras. Por minhas tentativas de mudar aquela cara melancólica, e esconder suas coisas. Jack que levou ovadas. Banana que levou pedalas.
Laiza que virou Lazia e agora é Lazanha, para não fugir à tradição. Laiza que traz sorriso, puro e aberto. Lazia que faz presença. Lazanha que solidifica o riso no nosso rosto, não deixa morrer.
Bianca, que desde sempre anda na minha vida. Aquela que antes era a Bianquinha, e virou Bia. E não escapou do apelido, e desde então é Cenoura. A mais certa de todas, mas que não perde a piada. A Cenoura, aquela amiga para sempre e para tudo. Dos conselhos e bafões, das provas difíceis também.
A Ana Paula, que nunca cresceu, literalmente. E ganhou o apelido de Formiga. Aninha toda dada. Impossível não rir, irresistível não apertar as bochechas. Formiga toda protegida por nós.
Ana carolina, que mudou para Libélula. As melhores notas e as piores loucuras na cabeça. Doida, maluca e responsável ao mesmo tempo. A maior e melhor contradição de todas, que trouxe gargalhadas inevitáveis.
Katia que pensou ter conseguido fugir, mas virou Katchaça. A menina loira dos olhos azuis que arrasava corações, e ainda arrasa. Katchaça do apontador rosa que fazia CLAP. Katita que também foi chamada de garanhona. Maluquinha e sem muitos neurônios, que acreditava em tudo que a Banana dizia, coitada. Mas que trouxe consigo uma luz cegante e iluminou todas nós.
E então a Flávia. Que passou por muitos apelidos e até hoje não se encaixou perfeitamente em nenhum. Porque não se descreve. Beterraba no começo, seguido de Kinder e depois Cabrita. Ela das pérolas impagáveis ( - Limoa, o que é água de réuso? - Agua de reUso, flávia, não de rÉuso.). Dos apelidos criativos. Da gargalhada certa e constante, quase fazendo perder o ar. Dos micos imensuráveis. E das lágrimas involuntárias após horas rindo sem parar. Kinder das perguntas idiotas e das respostas mais idiotas ainda(- Flávia, me empresta o Lápis de olho? - Pode ser lapiseira?). Bete da imaginação fértil e sem limite nenhum. Cabrita, que acompanhou duras caminhadas para o cursinho comigo, e que perseguia o Kariston  incessantemente para acertá-lo com alguma coisa. Flávia que escondia o estojo de todo mundo, pulava e saia fazendo montinhos inesperados. E que jogou ovo na Banana e quase infartou de tanto correr dela depois.
E todas juntas que, ao seguirem cada uma um caminho, levaram consigo uma parte de mim. Levaram uma parte do coração, dos risos escandalosos, e dos jogos de Betz. Levaram nossos jogos de volei, e uma parte significativa do meu sorriso que era tão maior antes. Elas todas que me fizeram voltar a vida depois de alguns anos vegetando, e conseguiram fazer meu coração voltar a bater decentemente. Todas juntas, que me fizeram ser quem eu sou e me aceitaram desde sempre como eu era. Vocês todas, que me matam de saudade a cada dia e me levam cada vez mais lágrimas ao olhar nossas fotos. Trazem as minhas melhores lembranças, e levam consigo meu melhor sentimento, e a memória do melhor ano da minha vida.


Elas que são minhas, para sempre. 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Empréstimo

Eu quero falar dessa vez. Confesso que cansei um pouco de só ouvir. Mas a questão é outra agora, porque não querem escutar o que eu tenho a dizer. Sei que não é nada engraçado, e nem divertido. Não é algo que se queira ouvir. Sei que quando abro a boca não saem mais minhas velhas piadas, mas, sabe, é só porque ninguém gosta delas.
Me deixa falar, mesmo que eu não use palavras concretas e coerentes, mesmo que eu se quer use palavra alguma. Porque ta me sufocando; ta subindo pelas paredes do meu pulmão e retendo meu ar, que, já faz algum tempo, não é muito. Eu pareceria menos inteligente se te contasse tudo o que eu realmente sei sobre tudo, considerando que isso nunca foi algo a se admirar? Porque eu não quero que você pense em mim como apenas mais um rostinho bonito. Não quero ser plastificada, não quero argumentar sobre assuntos que não conheço. Não pretendo criar falsas esperanças em ninguém. Por isso tenho medo que você ouça essas minhas palavras que estão querendo sair. 
Então será que, só por um instante, você poderia me emprestar seus ouvidos e me ouvir sem ter que pensar em como eu não sou tão interessante assim? Só me ouvir, sabe, sem precisar achar alguma coisa sobre o que estou dizendo. Sem ter que interpretar corretamente minhas palavras e concluir que, no fim das contas, não há nada de encantador em mim.
Desculpa se eu estou sendo egoísta. Gosto de escutar suas teorias também, gosto de dar conselhos e de poder ajudar. Mas, por favor, tem como nós invertermos os papéis só por enquanto? Porque minhas palavras estão diminuindo cada vez mais, e morrendo aos poucos. Não que falte o que dizer, mas é que falta alguém para me ouvir. E, por isso, eu vou deixando as letras pairando desordenadas a minha volta; incoerentes e insensatas.
Me desculpa, mesmo. Por pedir que você ouça minhas reclamações e enxugue minhas lágrimas. Não é justo, eu sei. Mas é que ninguém mais parece disposto a me emprestar uns minutos de atenção. 
Você apareceu em um momento ruim, e eu lamento por isso. Gostaria de te mostrar minha parte mais divertida, meu lado menos conturbado. Mas será que você acharia graça nele? Talvez eu tenha te decepcionado de vez com meus problemas mal resolvidos e meus casos sem solução.
Então, só para concluir, peço uma última coisa. Você pode me prometer que, quando e se decidir me ouvir, não vai pensar que sou fraca e sem graça? E não vai me julgar apenas tendo como ponto de partida essas minhas palavras tristes? Porque, desde que você prometa não ir embora e desde que me ouça só um pouquinho sem me ver como uma louca, então eu já estou feliz. 
E, pensando bem, se eu estiver pedindo muito de seus ouvidos, então apenas me empresta um abraço. Mas me abrace como se tudo ao nosso redor fosse se dissolver só com o poder de seus braços ao meu redor. Me abrace para sempre, com força, com vontade, como se fosse resolver todos os meus problemas. Simplesmente me abrace, e deixa esse abraço falar por mim todas essas coisas que estão presas na minha garganta e mudas em minha boca. 
Eu prometo que devolvo tudo, com juros e correção monetária.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Suporte

Você volta só para poder dizer adeus novamente. Entendo, sei como é. E não me agrada. Mas seria eu ingrata por pensar assim, de forma tão contrária. Ora, e não era meu o pedido para que a situação se resolvesse?
Pois bem, aí está. Sobre a mesa, e panos limpos; diante dos olhos. E não trouxe a satisfação que eu pensei que traria. A balança apenas equilibrou parcialmente, porque agora pende para o lado oposto de antes.
Mas já não sei mais. O necessário se fez doloroso. E o doloroso é quase tão pior que a necessidade. Talvez isso me leve ao erro, e esse seja o pecar. Porque mesmo que eu diga sim, sei que estou sendo apenas prática e agindo feito adulta. Só esqueceram de me perguntar se eu quero ser adulta, e ter que tomar decisões como essa, que definem como será o 'daqui em diante'. E eu acabo por aprender a duras penas que decidir isso sozinha não traz vantagem alguma e não resolve nada.
Então eu confesso, envergonhada até, que gostaria mesmo de um suporte. Admito que é demais para mim, e não sei se minhas costas poderiam carregar algo ainda maior mesmo que eu saiba que sempre sou capaz de ir um pouco mais além quando penso não poder ir mais.
Mas o suporte teria que ser uma solução, e não mais um problema. Teria que vir para trazer sol, e não chuva. Portanto agora eu fecho o meu zíper secreto. Lacro todas as minhas entradas. E apenas deixo estabelecer-se em mim quem me for útil de alguma forma, que seja boa e construtiva para que me ajude com esse crescimento acelerado. Alguém que não faça piorar e nem continuar como está, mas que acrescente melhorias. Mas garanto que, mesmo que não seja tudo isso, se trouxer a segurança que vem depois da tempestade e a certeza do sorriso depois das muitas lágrimas, então já está bom. E bastará.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Clássico

Diga sim Julieta. Corra o mais rápido que puder, porque vai durar tão pouco e vocês terão tão pouco tempo.
Vá e diga que o ama. Em 3 dias as coisas vão mudar de lugar, e o navio mudará seu curso. Se o ama, e é ele quem você quer, então corra e voe para os braços que te esperam do outro lado do portão, para a voz que te chama logo abaixo da sacada.
Vá Romeu, pegue-a pela mão e leve-a para onde o céu toca o chão. Carregue-a nos olhos, e mostre as estrelas enquanto ainda há tempo. Mas sempre haverá tempo. Porque você sempre a amará.
Mas, mesmo assim, corra, e vá atrás do por-do-sol mais bonito, e chame-o de Julieta por ser tão espetacular. Assim como ela chama a lua de Romeu por serem ambos tão deslumbrantes.
Leve o amor na bagagem, as boas lembranças no coração e a saudade na memória.
E vocês viverão eternamente esses poucos dias. E amarão para sempre um ao outro até o veneno penetrar suas veias. Mas ninguém soube que, um dia, Romeu voltou em outro corpo, e disse que ainda deseja todo dia a mesma mulher. Disse que viajou a prazo pro inferno só por ela. E aceitou a vida como é.
Enquanto Julieta, perdida em outra geração, alegou que mudaria até mesmo seu nome, e viveria em greve de fome, por Romeu.
Mas quem diria que, um dia, seria clássica a então trágica história de um amor curto e mortal? Clássico porque tudo vira poesia, e até o mais doloroso dos últimos suspiros tornam-se belos diante dos olhos cegos do homem. Clássico por ser triste, dramático e trágico.
E depois dizem que o ser humano é racional.




Escrevi o que me veio a cabeça, e eu sei que está tudo jogado de qualquer jeito. Ignorem.

domingo, 14 de novembro de 2010

Saudade

E, no fim das contas, é a saudade que ganha. Mesmo que você lute contra ela, e assuma o lado oposto; o lado do amor e das boas lembranças.
Ela, ainda assim, vence. Ultrapassa o amor, a amizade e o companheirismo. Atropela tudo; passa em cima das memórias e dos sorrisos. Porque ela sempre vai ser maior que tudo junto, somado e multiplicado. A saudade vai sobrar, quando o resto estiver indo embora; vai sentar e ficar para sempre enquanto os outros sentimentos vão se desgastar lentamente até sumir de vez. Vai a amizade, o carinho, o afeto, e, por ultimo, o amor. A saudade fica, presa e lacrada, no mesmo lugar. E aumenta, a cada dia, a cada minuto e a cada rápida olhada no relógio. Aumenta, fria e imperdoável, ocupando o lugar de todo o resto que habitava dentro de você, e cresce até não caber mais; até preencher todo o espaço e acabar por deixar transbordar pelos olhos aquilo que, antes, fazia parte do coração.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Presa

Eu sei que, daqui a algum pouco tempo, cada um irá seguir seu caminho. Eu sei que nada é eterno, por mais que o 'para sempre' esteja constantemente enfeitando as frases que dizemos e escrevemos uns aos outros. Eu sei, como a única certeza da vida, que eu vou continuar aqui e assim esperando ao lado do telefone por um toque que me diga que vocês também se lembram dos dias felizes. Eu sei, mas não gosto de saber.
Preferia não saber que, a grande maioria, vai guardar as fotos boas numa caixa e colocar em cima do armário até que um dia, talvez, seus filhos questionem sobre como era a adolescencia 'naquele tempo'.
Então, a nostalgia vai surgir nos corações, mas vai acabar como um sorriso de gratidão pela época vivida e com a caixa no maleiro, de novo. É, eu sei que esse é o ciclo natural das coisas e que, assim como todos os outros, eu deveria simplesmente me conformar.
Eu queria ser assim também, e pensar que bastou os anos que passamos. Mas não consigo. Talvez seja essa minha dificuldade em aceitar mudanças ou talvez seja ainda por estar tão adaptada a elas e saber o quanto estas ferem que eu não quero que ocorram. A verdade é que eu não sei dizer adeus, não sei seguir em frente. Permaneço presa e acorrentada a tudo aquilo que me fez ser feliz além das expectativas.
Detesto ter que admitir que as minhas fotos ficarão espalhadas pela cama enquanto eu estarei me afogando no passado que era tão melhor. E eu sei que é assim vai acontecer, porque o presente nunca é tão bom quanto o que passou.
E eu tenho certeza de como isso vai terminar. Assim como foi das outras vezes, eu vou ligar, correr atrás e tentar continuar o mesmo relacionamento que tínhamos antes, mas eu sei que chegará um tempo em que ninguém se incomodará mais em dar continuidade. Todos colocarão um ponto final e passarão para o próximo capítulo de suas vidas - exatamente como deve ser - enquanto eu ficarei presa às ultimas linhas, como quando não queremos que o livro acabe. Porque mesmo que a vida continue e siga o rumo que tem que seguir, eu sempre vou arrumar uma desculpa para poder lembrar dos tantos rostos que estiveram comigo. Sempre vou vasculhar minha memória atrás das nossas piadas, músicas e colas. E nunca vou deixar de me arrepender por não ter lhes dito, cada minuto que passei com vocês, o quanto significavam.
E, talvez por isso, a saudade chegou antecipada, antes mesmo do fim do ano, só para me matar um pouquinho mais a cada dia e me ensinar a não desperdiçar o pouco tempo que ainda nos resta. Só para avisar que o para sempre sempre acaba e que o fim está logo ali, virando a próxima esquina.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Definitivo

"Eu faria tudo para não te perder assim,


Eu gostaria de mais um encontro apenas, num lugar onde pudéssemos ser só nós mesmos e mais ninguém. Não vou negar. Uma chance, um dia, algumas horas. Para que pudéssemos colocar o sentimento para fora, conversar de verdade, e não apenas falar. E eu te perguntaria qual é sua comida preferida e você me revelaria alguns segredos. Eu te contaria minhas teorias sobre a cor do céu e a textura da chuva. Mas será que você se interessa por essas conversas que nós teríamos?
Eu só te quero bem, menino. Bem perto de mim. Eu quero que você caiba no meu colo, melhor do que cabe no dela. E poderia seguir por onde quisesse, porque eu tentaria acompanhar e seguiria logo atrás de ti.
Então me diz, o que anda te atormentando? Ela te perguntou a causa dos olhos tristes, embora haja sorriso mentindo no seu rosto? Você disse a verdade? Ela chegou a notar que, apesar da curva forçada dos seus lábios, o seu olhar anda perdido, sem rumo, preocupado? Me conta o que está acontecendo, mesmo que seja apenas um desabafo entre dois quase estranhos e mesmo que o assunto morra aqui. Deixa eu te ajudar, e te ouvir. Deixa eu falar também. Me deixa ser importante para você, nem que for só por hoje.  Destranca essa porta, me deixa entrar e limpar um pouco da bagunça que você fez aí dentro.
Mas você não tem porque dizer algo relevante para mim. E eu entendo isso, embora não goste nada. É melhor para você continuar com esses problemas mal resolvidos do que vir até mim, e criar mais confusão. Então ignora tudo que eu pedi. Ignora esse meu momento de fraqueza, que eu já estou erguendo a guarda novamente. Finge que meus olhos te fixam com pura indiferença. Vai ser melhor assim, sempre é. Melhor você continuar sem saber o que há por trás dessa minha testa franzida ao te olhar.
Nós teríamos ótimas conversas, e longas brigas; certamente. Teríamos assuntos de sobra para discutir e seríamos sempre contrários nas opiniões, como já somos. A diferença é só que confessaríamos isso um ao outro e não deixaríamos mais a dúvida apenas pairando no ar.
Só que está amanhecendo, e cada um indo para um lado, como acontece quando chegamos a este capítulo - o último. Pode ser que seja por isso toda essa minha necessidade dos seus olhos nos meus, porque sei que a separação definitiva está perto demais. E estou cada vez mais próxima de onde termina o seu horizonte. Mas sei que não posso reagir de nenhum modo. Sei e, mesmo relutante, me conformo. Aceito mais uma vez e paro de tentar adiar isso. Agora eu apenas te deixo ir, bem diante dos meus olhos, ao alcance de minhas mãos. Deixo, definitivamente.
E, como um ultimo consolo, talvez até faça bem. Quem sabe essa distância traga paz. Não que isso vá me deixar feliz; não, não vai. É só que vai ser bom poder respirar fundo sem precisar sentir seu perfume. Vai ser saudável abrir os olhos e não te ver passeando por aí, cruzando meu caminho. 
Te deixo ir, mesmo sabendo que eu faria qualquer coisa para impedi-lo, porque eu sei que vai por vontade própria, com as próprias pernas. E só porque também sei que pode ser que seja bom, saudável e melhor - para o corpo, a alma e a mente. Mesmo que não seja para o coração.


...mas o dia vem e deixo você ir."

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Obrigada

Eu não te trago flores, porque elas murcham. Não falo nada, porque você não pode mais me ouvir. E não venho uma vez ao ano, porque não vejo motivo. Estou aqui agora por livre e espontânea pressão e nada além disso.
Converso agora com uma placa, e sei que é apenas uma placa. Mesmo que, secretamente, eu permita-me acreditar que você está ao meu lado, passando seus dedos macios pelo meu cabelo. Ainda que, de vez em quando, eu finja que é verdade o que dizem. Finja que você me ouve e que me acompanha aonde quer que eu vá. Finja que suas mãos estão nas minhas.
Só que eu olho ao redor e não vejo nada além de obrigação. Eles todos vêm 'te ver', porque é dia de fazer isso. É dia de ver a placa com seu nome, e nada mais. É o mês em que temos o costume de acender umas poucas velas e deixar uma flor qualquer só para poder dormir a noite com a certeza de missão cumprida.
Ninguém faz porque se importa, ou por algum motivo especial. Apenas faz porque tem que fazer; faz para mostrar ao mundo que fez sua parte.
E, pensando bem, eu mesma nunca quis vir até aqui. E continuo não querendo. Porque não vejo sua presença em nenhum lugar deste jardim, e sei que não vou ver nunca mais. Mesmo que eu tente acreditar na sua existência sobrenatural, não consigo porque tenho plena consciência de que ela não existe. Não sei o que faço aqui, parada ao lado de um quadro de nomes pregado na grama. Não sei porque tenho que vir e fingir que você está feliz por eu ter vindo, sendo que não gosto dessa farsa.
Afinal, o que eles esperam que eu diga? O que querem que eu faça? Mesmo que eu grite seu nome e ainda que lágrimas escorram por minha face, nada vai mudar; nada disso trará de volta. E será, mais uma vez, tudo em vão.
Então me desculpe, mas eu não quero voltar a este lugar. Não quero ter que ver os mesmo cravos que te levaram embora e sentir esse cheiro repulsivo se não for por uma causa justa.
Porque eu não gosto nada desse jeito como as pessoas agem agora, como se se importassem.
Então eu só deixo registrado o óbvio, para não perder o costume e na remota esperança de que, um dia, você tome nota disso. Digo que sinto sua falta com a mesma intensidade que senti no primeiro dia. Digo que o seu espaço ainda está vivo dentro de mim; você ainda existe e respira dentro do meu coração. E deixo um sorriso forçado, não porque acredito que você o está vendo, mas porque sei que gostaria de vê-lo estampado em meu rosto se estivesses aqui.
E essa é e sempre será a única razão para que eu não reaja quando for obrigada a voltar aqui.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Deixa

Deixa, porque eu deixo. Beija, porque eu não ligo.
Deixa as coisas fluírem, porque eu perdi o medo. Eu perdi a razão e os motivos, e danem-se eles.
Me pega pela mão e não precisa de palavras quando temos as estrelas para falar por nós. Finge que não tem amanhã, e vem viver o agora comigo.
Me deixa olhar nos seus olhos e te sorrir um pouco, porque não faz mal.
E não me pergunte mais porque, venha e me leve para onde possamos ser apenas dois perdidos.
Não vou te dar razões, não tenho motivos. Venha, porque eu quero que você venha. E corresponda ao arrepio dos meus braços descobertos.
Embora você não saiba o que dizer, eu não estou me importado com nada esta noite. Mesmo que não haja tempo suficiente, nós sabemos que nunca vai haver, e eu sempre vou querer só mais um pouquinho de você. Então deixa ser. Porque eu me permito. Não pense muito no que vai acontecer, e deixa apenas tudo caminhar.
Não quero pensar no que pode ser quebrado pela manhã; eles sempre encontrarão uma forma de falar.
E a areia está tão convidativa. Não precisa de razão para nós apenas ficarmos bem hoje. Você também quer que eu vá até aí e te impeça de ir embora? eu vou. Não faça juras de amor, porque não vamos prometer nada esta noite. Só fique aqui comigo e não tire seus olhos de mim. Nunca tire seus olhos de mim hoje. E deixa, que o resto se resolve sozinho.
Eu só te quero livre aqui, como você me quer também. E já dizia a Marisa, como o tempo vai e o vento vem.




"Me dá um beijo então, aperta a minha mão.
Tolice é viver a vida assim, sem aventura.
Deixa ser, pelo coração..
Se é loucura então melhor não ter razão."

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

30/10/2010 - 31/10/2010

para Mari, Lary e Gabi.


Então vocês apareceram na minha vida, e no começo eu achava que não me encaixava; que ao lado de vocês não era o meu lugar. Porque, parando para pensar, somos todas tão diferentes. Mas de repente, antes que eu pudesse me dar conta, vocês já estavam tão fixadas dentro de mim que não havia mais como impedir isso. Aos poucos eu fui absorvendo um pouquinho de cada uma, e hoje estão as três coladas no meu coração. Porque é tão fácil gostar de vocês, que chega a ser absurda a idéia de alguém não gostar.
Eu cheguei até a contar coisas que não contei para mais ninguém, deixei-as entrar no meu mundo particular por vontade própria. Porque eu queria e quero que vocês saibam sobre mim e sobre a maneira como eu penso. Eu descobri que as quero na minha vida, para contar segredos ou discutir cortes de cabelo. Quero as três não só como amigas, mas como melhores amigas. Quero contar e dividir minha coisas com vocês, como nunca pensei que poderia. E mesmo que sejamos mesmo diferentes - e somos -, mesmo que algumas votem no Serra e outras na Dilma, mesmo que as nossas roupas não sejam nada parecidas, ainda assim, é exatamente dessa forma que eu amo vocês.
A Gabi com o necessário, que faz bem, leve como uma brisa dessas fresquinhas, suave; que vem para levar embora o excesso, para não deixar transbordar. A Lary com seu embalo e seu furacão que contagia, pega e entra dentro da alma, que vem para trazer gargalhada e para soltar o que você passa o tempo todo reprimindo. A Mari que vem solta, com sorriso de primavera, e um jeito cantado de Nando reis; que vem para deixar as coisas fáceis, descomplicadas e calmas.
E as três, que vêm juntas, como um pacote, para completar tudo aquilo que falta em mim. Para ocupar o espaço vazio que eu não sei preencher. As três que vem para fazer bem e, inconscientemente, levar embora as mágoas escondidas.
Por isso é tão injusta a maneira como, logo agora que eu me dei conta da forma como as quero perto de mim, a vida vai tirá-las de meu caminho. Como se estivesse apenas esperando eu amar vocês e me apegar a nós todas juntas e nossas risadas, para então vir a idade e o tempo e levá-las embora. Mas não quero pensar nisso, porque me dói só de cogitar a possibilidade de tomarmos estradas diferentes.
Então, antes que seja tarde, eu quero que saibam que existem coisas que ninguém nos tira. Podem tirar nosso dinheiro, as pessoas que amamos e até podem tirar nossa vida; mas o amor que habita dentro de cada um, não morre, não acaba e não muda; as memórias e lembranças que eu vou levar das nossas conversas e desabafos vão ficar gravadas como tatuagens. E por mais que diversas pessoas digam isso, por mais clichê que possa soar, eu quero que saibam que não há memória que o mundo possa apagar. Porque elas estão gravadas no coração, e não na cabeça.
Eu amo vocês, mesmo que não pareça e mesmo que vocês não sintam o mesmo, não importa. Eu amo.
Amo, amo, amo. Amo a maneira como fazem parte do grupo de pessoas mais importantes da minha vida. E amo como sempre farão parte esse grupo. E por mais que eu fale, e grite tudo que eu amo em vocês, ainda não seria o suficiente; ainda não faria justiça. Porque nem se eu passasse a vida inteira escrevendo, não conseguiria colocar a beleza de cada uma de vocês em palavras. Não poderia dizer como vocês são tão melhores que eu, e ainda assim permanecem por perto, mesmo quando eu falo besteira ou pareço uma idiota. Só o fato de vocês continuarem aqui, já basta por todo o resto.


"Olhem para as estrelas. Vejam como elas brilham para vocês; para tudo que vocês fazem."

sábado, 30 de outubro de 2010

Instantaneo

Andando na rua, eu sigo o mesmo roteiro de sempre. A mesma rotina.
Mas, ao perceber alguém me observando e erguer os olhos para tentar localizar o individuo, eu me deparo com você. Transformo-me em estátua, fixo o olhar e paro de respirar. Perco o chão, o senso, o batimento, a razão. Perco tudo que havia construído desde a sua partida e me dou conta do inegável: você voltou.
Com força e intensidade total, como um furacão; tsunami que invade a cidade antes que alguém se dê conta. Renasceu do pó das cinzas; ressurgiu do fundo falso de um baú esquecido.
Como se atreve? Depois de anos. Depois do tempo que eu demorei para te colocar para fora dos meus sonhos, aqui está você novamente, pronto para o segundo round.
É perceptível a mudança. Não tão bonito, não tão irresistível. Não mais insuportavelmente charmoso. Mas não mudou de verdade; o mesmo corpo magrelo e alto continua aí, as mesma roupas e o mesmo estilo. E o cabelo, ah, o cabelo! A razão pela qual eu olhei para você naquele primeiro dia, tanto tempo atrás. Um pouco mais curto sim, mas do mesmo amarelo suave de sempre. Talvez seja eu que tenha mudado, no fim das contas. Porque agora, com seus olhos colados em mim e não mais o contrário, eu percebo que nós acabamos por inverter nossos papéis na trama. Eu não sou mais o patinho feio que só ganhava olhares insatisfeitos e debochados. E você, bem, não é mais o cisne lindo e maravilhoso que matava só com um sorriso.
Entendo, porém, que os papéis foram trocados apenas parcialmente. Você não se tornou um patinho feio, nem eu me fiz cisne. Agora, quem sabe, estejamos no mesmo patamar; iguais.
Mas isso não muda a situação, menino. Ainda parada aqui, sem fôlego e desnorteada, eu me dou conta do que está acontecendo. Você não percebeu que voltaram também os sonhos, ilusões e a pontinha de esperança? Não é justo que você faça isso comigo. Não dessa maneira, não outra vez.
Então me diz que não lembra de nada, nem do meu rosto e nem das minhas tentativas idiotas de me aproximar de você. Diz que nunca me viu na vida e acaba logo com esse teatro. Acaba com essa farsa; destrói o pouco de expectativa que eu acabei criando sem querer ao te olhar nesse milésimo de segundo que parece uma eternidade.
Eu sei que não é como era antes. Eu não sou mais louca por você e não tenho crises de abstinência. Mas eu tenho medo de fraquejar. Você voltou sem um aviso prévio, me pegou de guarda baixa. E agora eu não sei o que faço.
Eu estou empacada de novo?! Presa ao mesmo conflito de antes. Só que nós crescemos, e eu não posso mais sustentar esse platonismo absurdo. Porque você? Justo agora que eu estava conseguindo seguir com a minha vida de novo; justo quando eu finalmente assumi o controle sobre meus sonhos, planos e metas você vem e destrói tudo novamente. Como se estivesse apenas esperando eu reconstruir o castelo de cartas, colocar a última, para então vir e assoprar o trabalho de anos. Como se minha sorte e você fossem cúmplices nessa piada de mal gosto que pregaram em mim. E agora até minha mente se faz incoerente.
Ar. Você está roubando meu ar novamente? O que mais quer de mim? Meu coração, minha alma, meus pensamentos, meu ar e o que?
Então eu percebo - com um estalo tão alto que quase me deixa surda - que ainda estou no meio da rua, segurando um côco gelado e o troco; prendendo a respiração e boquiaberta. Meus olhos fixos, presos e escravizados na visão impossível; no quadro que pintei tantas vezes em minha mente: nós dois nos olhando, ambos admirando um ao outro e não apenas eu roubando olhadelas furtivas.
E depois de apenas milésimos de segundos que levei para encontrar seu olhar, ter esse discussão interna e criar esperanças, eu apenas pisco meus olhos - já secos de tão vidrados no improvável - e acordo do transe, ofegante pelo tempo sem respirar, atordoada; completa e totalmente perdida. Mas surpreendentemente inteira.
Não pela metade, não desiludida e não empacada como pensei que estaria quando me desse conta do fato, quando absorvesse a realidade que está bem diante de meus olhos.
Apenas inteira, constituída, inalterada.
Com outro estalo, porém mais parecido com um "POP", percebo que nada aconteceu realmente. Você me viu e eu, quando percebi quem estava me olhando, tive um breve momento de deja vu. Uma breve recaída pela surpresa e somente por isso. Nada mais. Porque agora até você percebeu que aquela menina frágil e inocente, tornou-se essa mulher para quem você está olhando agora. Essa mesma por quem seu queixo caiu.
E mesmo notando que você ainda está aí vidrado e imóvel, com certeza reconhecendo esse rosto quadrado que sempre tentara te fazer notá-lo, eu vejo que não ligo. Não me importo que você ainda esteja me olhando descaradamente, atônito, bobo, com a boca escancarada e os olhos arregalados, porque ainda não se recuperou do choque. Não dou a mínima se causei algum impacto em você, como frequentemente acontecia comigo naquele tempo.
E, por isso, eu - totalmente curada - apenas continuo meu caminho pela calçada, surpresa por esse encontro imprevisto e estranhamente engraçado enquanto seus olhos ainda me contornam, fazendo seu pescoço dobrar para que possam me acompanhar até a esquina. Viro-me mais uma vez para trás para me certificar que você está aí mesmo e ter certeza de que eu estou mesmo te deixando; encontro seus olhos e não me perco neles, apenas rio comigo mesma, percebendo que você é passado e que eu aceitei isso inconscientemente.
Dou-me conta de que não há mais nada que me prenda nessas íris absurdamente verdes. Nunca houve, na verdade. Porque agora, é o meu castanho claro que está te hipnotizando, e é você quem sorri convidativo para mim. Mas descubro apenas que eu sou bem melhor sem você, e sigo meu caminho pela mesma trilha, porem dessa vez tendo certeza de que te deixei para trás, enterrado com uma rosa em um buraco bem fundo e distante, perdido no meu passado. E concluo, finalmente, que esse foi só um encontro casual, uma queda momentânea e uma lembrança divertida. Um sentimento instantaneo que me atingiu no breve segundo que te flagrei do outro lado da rua, mas que passou assim que pisquei meus olhos. Instantâneo, momentâneo; daquele tipo que passa e não volta mais. Mesmo que seja cedo para dizer jamais, sei que não é tarde demais para te dar adeus - definitivamente.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Utopia

A ansiedade, espera que me mata. Sonha acordada com o encontro que não é feito de dois corpos, mas sim dois corações. Centenas de indivíduos, porém, soando como uma única canção, sendo separados de outro grupo - não tão grande - mas que, por sua vez, forma outro batimento conjunto; uníssono. Palco e platéia. O pulso e o pulsar.
A vontade de sobressair entre os tantos que sentem o mesmo que você. Gritar mais alto, com mais fôlego. Mostrar-se mais admiradora que os outros que estão presentes.
Querer ser notada por eles, que nada mais são, além de pessoas normais; como eu, como você.
Querer abraçá-los e dizer que os ama. Mesmo sabendo que não ama, assim, como amam. Ama a música, o jeito de tocar, meio virado de lado, fazendo careta. Ama as roupas,e o modo debochado de cantar canções protestantes. Ama porque gosta, admira, inveja até, de vez em quando.
Achar bonito não pela beleza, mas pela sonoridade das vozes e instrumentos que lhes foram dados. Pela maneira como soam todos juntos, uniformes, convincentes, decididos.
Gritar porque transborda. Chega a superfície a emoção, e salta dos seus lábios mesmo que você não permita-se esse tipo de reação.
E gritar mais ainda; com pulmões, alma e coração, quando os vê ali, apenas alguns passos de distancia. Não suportar a explosão dentro de você e acabar por perder o controle, jogar as mãos para o alto e, com a maior euforia, deixa-se gritar junto com a maré da multidão que canta em um única voz, um único som, sem parar:

TI-TÃS,  TI-TÃS,  TI-TÃS.

 
22/10/2010 - Campinas Hall

São pessoas como você; comem como você, agem como você. Mas são também os Titãs, que tocam um rock debochado; aqueles das letras protestantes. Aqueles que você se esmaga, entorta, estica e empurra, só para poder ver um pedacinho do palco onde pisam. Mesmo que seja indiferente para eles todo o seu esforço e mesmo que saiba disso, faz um mundo de diferença para você o pouquinho que pode vê-los em ação.

sábado, 23 de outubro de 2010

Ovelha negra

Eu realmente levava uma vida sossegada, pelo menos com relação a isso. Gostava do pouco, não precisava de muito para ficar impressionada, fascinada; deslumbrada. Tinha um sorriso fácil brincando nos lábios, que não precisava de nada para existir.
Eu cresci assim, não mudei. Mesmo sem a lama nas mãozinhas pequenas e com os livros ocupando espaço, tempo e mente, eu ainda estava lá com o mesmo lábio frouxo. Talvez o erro tenha ocorrido aí, nesse ponto. Porque mesmo que, por dentro, eu fosse a mesma, por fora eu havia mudado. E a antiga frase de não julgar um livro pela capa nunca foi obedecida. Todos me olhavam como se estivessem esperando; esperando pela troca de menina para mulher que não aconteceu plenamente. Talvez o erro foi crescer sem isso que vocês chamam de noção de realidade. Ou que eu chamo de pessismismo.
Foi quando a ficha caiu, sem que ninguém precisasse me dizer. Aprendi que no mundo dos adultos não existe confiança de olhos vendados, e ninguém gosta dos que ainda estendem a mão. Não entendem a verdade que alguns ainda levam ao sorrir.
A duras penas aprendi que a boba, errada e fora do contexto era eu, o tempo todo. Sozinha me dei conta de que só existe aceitação na inocência quando se é criança. E, por mais que tenha descoberto isso, não entendia. Não compreendia porquê não podia sorrir da mesma forma como fazia antes, e porque a mania de abraçar desses meus braços mal acostumados, não agradava mais ninguém. E me machucava que eu não pudesse mais mostrar meus desenhos de castelo, e que ninguém mais sorrisse para mim.
Percebi então que a peça torta era eu. Aquela que não encaixava e deixava o quebra-cabeças incompleto. E não notei isso sozinha, porque olhares me seguiam por toda a parte como quem pergunta: Você não vai crescer?
Mas eu nunca achei que crescer fosse reprimir o amor excessivo que eu sentia e guardá-lo apenas para mim. Agora que não há mais motivos para mascarar o inevitável fato, todos me perguntam quando eu vou deixar esses sonhos idiotas. Mas então isso se fez incoerente. Porque fazer crianças acreditarem em contos de fada, papai noel e coelho da páscoa? Só para depois deixarem que elas descubram sozinhas que nada disso existe? Isso é o que vocês dizem fazer parte do 'amadurecimento'? Pois eu continuo achando um tanto cruel que não possamos mais confiar uns nos outros e acreditar no que se sonha.
Mas o tempo passou e eu reformulei meus objetivos, deixando-os um pouco menos ilusórios; tentando enquadrar-me no padrão. Ainda assim, quando eu contei dos meus planos, só pude ouvir críticas e pessoas se perguntando onde eu estava com a cabeça, e onde eu pensava que vivia. Eu sei que não é o país das maravilhas, mas isso não me impede de tentar. Sei também que niguém mais acredita nem nos próprios sonhos, mas nem isso me impede de seguir em frente com os meus. Mesmo se eu quebrar a cara no final, eu sei que valerá a pena. E não vou tirar isso da cabeça.
Por o resto no lugar? Que resto? O que restou depois de jogar todas as esperanças no lixo? Então sou eu a ovelha negra só porque não deixei de acreditar no amor de verdade, na sinceridade de um abraço? Desculpe se eu não acredito nesse farsa de que ninguém é inocente e todos estão sendo falsos e agindo de má fé.
Porque, depois de tantas tentaivas de me adequar a essa sociedade cinzenta, eu acabi por decidir que prefiro acreditar nas minhas cores particulares que todos sempre me fizeram esconder. Mesmo que eu esteja errada, ou me iludindo com isso. Ainda assim, eu prefiro essa minha certeza de que, apesar de tudo, ainda somos humanos o suficiente para amar e sermos amados. Assumo que penso assim, mas nem por isso vou sumir. Gosto do amarelo, acredito no azul promissor e é bem aqui que vou ficar.
E se isso faz mesmo de mim ovelha negra, eu aceito e agradeço porque, se quer mesmo saber, eu não ligo e até prefiro.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Familiar

Soltei a porta devidro atrás de mim e congelei. Encarei paralisada e boquiaberta o novo, mas tão estranhamente conhecido, lugar onde eu me encontrava. Já estivera aqui antes? Parecia uma lembrança muito distante, quase como se não fosse minha, mas era confortadora. Jorros de flashs, conversas altas de senhoras rabugentas, e vozes infantis preencheram minha mente no que durou uma fração de segundo. Fui andando até os sofás azuis e sentei, analisando os fatos. Era a mesma hora, só que muitos dias, meses e anos depois. Talvez fosse até o mesmo relógio impiedoso que nunca se deu comigo, o mesmo sofá em que me esmaguei horas, as mesmas paredes branco-sujo em que eu desenhava carinhas felizes com a ponta dos dedos e até o balcão permanecia o mesmo em que, tanto tempo atrás, eu me estiquei para conseguir ver acima dele. Tudo tão familiar e tão diferente. Como se o angulo tivesse sido ajustado, aprimorado e adequado a minha nova visão, mas o foco fosse o mesmo.
Traços jovens e rostos inexperientes me disseram que as atendentes eram outras, não tão cansadas e nem tão simpáticas; educadas é um termo cabível, e só.
Desta vez o lugar estava vazio, desprovido das ondas de tensão geradas pelos seres humanos que circulavam por entre os corredores, à espera do negativo, no bom sentido. Vazio, silencioso e ondulando o tédio comum da manhã de sábado. Ficha concluída, procedimento pago e pouca espera foram seguidas pela voz rouca e com anos aparentes de uso da enfermeira. A tensão agora preenchia o cômodo, mas tinha uma única fonte - eu.
E depois do sacrifício, do medo e da tensão, passou. Não havia mais o déjà vu assaltando meu estômago e minhas memórias. Tudo normal, mesmo que curioso.
Uma ultima olhada e um ultimo flash me desarmou antes que eu atravessasse a porta de vidro para o lado de fora - a tão conhecida mão, segura e acolhedora, me segurava macia contra a sua enquanto a outra limpava minhas lágrimas. A pessoa que eu tentava ver através dos pequenos olhos molhados estava mentindo com um sorriso no rosto sobre a suposta 'picada' no meu braço e afirmava impacientemente que já estávamos indo embora.
Mas então sumiu. Se desfez no ar. Num piscar de olhos vertiginoso, percebi que a mão não estava mais na minha e que o 'ir embora' morreu ali, junto com aquela ultima lembrança, como se estivéssemos até hoje tentando encontrar o caminho para casa. Enquanto isso, eu entrei no carro e disse adeus à clínica, mais uma vez.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Abrigo

Tão perto que chega a ser quase palpável; quase, se não encontrasse um jeito de escapar novamente toda vez que eu me aproximo.
É praticamente uma ofensa que você esteja tão perto de mim. Um insulto, quando sou obrigada a respirar perto de você, e sentir esse perfume absurdo, unicamente seu. Não é justo nem o jeito que você anda.
Mas do outro lado da moeda, no seu território, só há indiferença. Enquanto eu me desmancho no vento toda vez que o vejo, você está simplesmente vivendo sua vida.
E na mesma linha que eu descrevo suas expressões tão conhecidas por mim, você rabisca alguns poucos bonecos-palito. No mesmo livro em que eu conto a sua rotina que já memorizei, as suas mãos deslizam distraidamente apenas para passar o tempo, sem notar que do outro lado da página eu te observo, te leio; interpreto.
Como quando segui e contei cada passo seu; pegada por pegada na areia enquanto você vagava sem rumo pela beira da praia. Ou quando você pediu um suco de laranja para o moço do quiosque e ele não soube contar o troco. Até que seus olhos mudaram de direção e focaram em mim, perdida nos seus movimentos. E desde aquela vez, você não deixou mais de cruzar o seu olhar pelo meu caminho, desviando sempre que eu estou perto de corresponder. Mas o que isso quer dizer? Que você gostava de mim e ainda gosta? Quer dizer que ainda há alguma razão que te faz olhar para mim?
Ei! Porque você precisou complicar tanto as coisas? Não estava bom só com o fato de eu continuar a te observar enquanto você fingia indiferença? Então porque agora você resolveu que queria olhar em meus olhos de novo? Só para me dar esperanças falsas? Porque motivo seu olhar constantemente me encontra, mas não me deixa encontrá-lo de volta? Me irrita como você realmente pensa que eu não percebi.
Então diz, admita na minha frente que, depois de tanto me roubar olhares perdidos, não percebeu como eu estou sempre aqui, por perto. Confesse que seus olhos não me procuram também, de vez em quando, como um desabrigado pedindo refúgio, mesmo que você tente disfarçar.
Mesmo com essa sua mania de fugir sempre que eu estou quase lá, tornando você quase meu. Ainda que, ao tocar minha mão, você se transfome em líquido e se esvaia pelas frestas de meus dedos.
E não há razão para que eu continue a te contornar, desenhar e pintar com meus olhos já que não existe borracha no mundo que possa apagá-lo. Você se importa com a forma como fica bem mais feio no meu desenho? Espero que não perceba isso, do mesmo modo como não nota que as palavras me fogem. Por que eu estava brava com você mesmo? Ah, menino. Minha raiva não dura nem o tempo que eu demoro para escrever essa palavra. E agora, mesmo sabendo o quanto eu deveria odiar isso, eu só consigo pedir que você nunca tire seus olhos dos meus. Me deixe brincar na borda desse seu abismo mais um pouco, e tudo ficará bem. Talvez o infinito acabe aqui, bem no seu sorriso torto, mas eu não me importo desde que você siga comigo nele, de mãos dadas. E depois a gente resolve o que faz com a sua nova garota e meu novo menino; ambos sabemos que eles estão apenas de passagem e que, além de nós mesmos, ninguém mais vem para ficar na nossa vida. Porque mesmo que você sempre corra mais rápido que eu, mesmo que você fuja sempre que eu estou perto de te encontrar e mesmo que você desvie o olhar, ainda assim, eu sei que, se há um lugar para o qual você sempre quis fugir e refugiar-se, bem, aqui está... estampado em castanho claro bem embaixo de minhas pálpebras, como um abrigo que espera por seu ocupante.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Isabela

Nós nunca fomos assim, do tipo amigas-inseparáveis. Acho que nem nunca fomos melhores amigas, apesar de que já estivemos bem próximas disso. Mas mesmo assim, eu sinto sua falta como se você fosse minha irmã.
Talvez seja até estranho isso. Porque sempre foi assim. Longe ou perto, você sempre foi aquela de sempre. Mesmo com tantas pessoas a nossa volta. E as vezes eu me pergunto: "Por que você?". Poderia ser qualquer uma, mas não é.
Eu não sei explicar o que nos une, mas só de saber que você existe e que está feliz, eu já fico feliz também. Como se houvesse uma ligação desconhecida, que me faz acreditar que nada nunca esteve entre nós duas e que fomos nós mesmas que colocamos algumas barreiras nessa amizade talvez por não termos mais tantos assuntos em comum. E eu entendo isso, ainda que não goste dessa distância; eu entendo que agora você tem suas amigas e seus segredos com elas; entendo que você tem um namorado e que nós duas crescemos, infelizmente, separadas. Mas eu queria mesmo que você me desculpasse por muitas vezes não ter te dado a atenção que devia. Me desculpasse por nunca ligar para você, quando você me ligava quase todos os dias só para bater papo. Me desculpasse por ter deixado você sozinha a maior parte do primeiro ano, sabendo que você não tinha ninguém conhecido na sua sala. E me desculpasse, antes de qualquer coisa, por não ser nem metade da amiga que você foi e ainda é para mim.
Me desculpa mesmo por nunca ter feito tudo o que você fez por mim.
Ah Isa! Você foi a única que esteve comigo no pior momento da minha vida, e isso não é algo que se esquece assim, fácil. Você foi a única que aceitou ser minha amiga naquela época em que eu era "a estranha'. E nada no mundo pode retribuir isso, nada mesmo.
Por isso tudo, só queria mesmo que você soubesse que tem um lugar insubstituível no meu coração da mesma forma que sempre teve. Porque eu amo você muito e o que mais gosto em você ainda está aí dentro do seu coração. Eu sei que pode parecer besteira, mas sinto que só você sempre me aceitou, de bom grado e sem pedir nada em troca, exatamente como eu sempre fui; meio idiota, meio tapada, meio palhaça-de-circo-mal-sucedido.
E nós nos tornamos amigas assim, eu sendo eu mesma e você sendo você mesma; sem adicionais.
Então eu acho que, antes de qualquer coisa, você precisa saber que, para mim, essa é a verdadeira amizade. Aquela que não exige mudanças, ou transformações. Esse é o verdeiro sentimento que une pessoas. Amizade que é amor, que é irmandade. Mesmo você sendo uma pessoa dez mil vezes melhor que eu, ainda assim, você continua aqui perto de mim.
Eu amo você, Isabela. Desse jeito, dessa forma. Exatamente como você é.
Para sempre, e sempre assim.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Mas passa

Não esconda mais essas suas lágrimas, menina. Chora, arranca com as unhas; põe para fora. Rasga o pedacinho que ficou grudado; tira tudo que ainda resta. Ninguém nunca disse que seria fácil, mas também nunca te disseram que era tão difícil assim. Eu sei, pequena. Mas não se pode levar nada ao pé da letra.
Sei que as palavras parecem vãs agora; ilusórias e impossíveis. Mas passa; passa sim. Você sabe disso. Demora, dilacera, sangra até quase não haver mais sangue. Tudo isso só para você ver que, no fim das contas, não era nada demais. Hoje ainda dói, e amanhã vai doer mais ainda. Semana que vem vai corroer, e nos próximos meses vai queimar numa brasa que parece infinita. Mas, quando acordar pela manhã, verá que deixou de existir essa parte que doía em você, e a vida vai seguir como sempre foi.
Pode ser que as memórias ainda machuquem um pouco, e o incomodozinho no estômago volte de vez em quando, mas vai passar também. Da mesma forma que passou quando seu primeiro amor mudou de escola. Como quando você cortou o joelho e achou que nunca mais iria parar de arder, e parou.
Não vai ser para sempre, não, não vai. Dói agora, sufoca e faz mal, mas não mata. E talvez você pense que a morte seja até melhor; menos dolorosa. Só que não é. Porque a vida passa, mas a morte fica empacada na mesma dor para o resto da eternidade.
Passa a vida, assim como o tempo, as estações, a idade. Passa a dor também, mesmo que não dê indícios de que vai passar.
Mesmo que, por enquanto, seja infinito.
Machuca, faz chorar, faz gritar e quebra teu coração em pedaços menores que areia, eu sei, acredite.
Mas, ainda assim, passa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pombeando

Depois de tantas indas e vindas, confusões e difusões e perspectivas de vida diferentes, que se alteram rapidamente enquanto transito de uma casa para outra, talvez eu tenha desenvolvido um tipo de proteção. Porque antes era angustiante, desgastante e me consumia por inteiro. Antes, me desesperava e fazia-me perder a esperança. Era torturante ouvir que havia cada vez mais problemas, e cada vez menos soluções no meio daqueles que eu amava mais que a mim mesma e ainda amo. Ouvir os dilemas caseiros alheios e descobrir que eu me importava com eles mais do que com os meus próprios casos sem solução.
Então eu encontrei meu centro; meu ponto de ebulição. Resolvi que podia tentar focar mais essa agonia em algo que fosse realmente importante; algo que estivesse mesmo com defeito e que eu pudesse consertar. Algo solucionável.
Porque, bem a tempo, eu descobri também que tudo não passava de patifaria e exagero de indivíduos sem nada além de reclamações para preencher o dia. Não passava de mera distração e casualidade. Era normal comentar sobre uma dor aqui ou um dia chuvoso ali, reclamar sobre a inflação e tentar arrancar do próximo algum tipo de olhar piedoso. Era normal e ainda é essa auto piedade que alguns sentem. A diferença é que eu não entendia isso, não compreendia porque pareciam todos estar tão tristes e tão decepcionados com a própria vida. Porque, olhando ao redor, eu via sim algumas falhas, mas também reconhecia a beleza do pão quente de manhã em um mundo que morre de fome todos os dias; a maravilha de ter uma casa enquanto muitos dormem na rua. Ainda assim, me fazia querer explodir o mundo quando via tantos rostos conhecidos distorcidos, chorando por algum tipo de dor.
Felizmente eu cresci e percebi que não há nada tão errado; não dessa forma como me contam. A questão em si está em como o ser humano nunca está satisfeito, e em como pessoas que amam demais tem a necessidade de ver sorrisos nos rostos das pessoas que as cercam, não entendendo que, para essas pessoas, não há infelicidade nas reclamações, mas prazer.
Por isso, eu me tornei imune a toda essa ladainha e essas lágrimas falsas. Elas ainda me surpreendem e me pegam de guarda baixa, mas não me fazem querer arrancar os cabelos de angústia por achar que alguém que eu amo está sofrendo. Eu finalmente entendi que não há sofrimento em toda essas conversa fiada, há apenas a falta de conteúdo na hora de elaborar uma conversa. Eu entendi que ninguém está realmente triste com determinado problema; apenas está tentando se fazer de coitado.
Agora, eu passei a encarar a realidade e não mais a fantasia criada por trás dela.
Agora, eu continuo pombeando pelas casa familiares, entrando e saindo de lares com humores diferentes em curtos períodos constantes, mas sem deixar afetar o interno, como se fosse impermeável. Como se não absorvesse a essência do problema, do sentimento; a essência da essência.
E não, eu vejo que isso não é bom. Porque, por mais que pareçam banais, não são. Mas nós permanecemos nessa eterna mania de nos preocupar apenas com nossos próprios problemas; nossa mania de minimizar o sofrimento alheio.
Agora, depois de tantos calos, eu percebo minha humanidade sendo deixada para trás para poder assumir a coisificação da nova era; a desumanização.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Alheia

Eu reconheço, admito, confesso e me entrego. Talvez haja mais de mim espalhada por aí, nos ventos, flores e oceanos, do que aqui dentro desse corpo.
Como num fácil livro de magia, eu sempre faço-me poética nas palavras, nas músicas e no olhar. Faço-me deslumbrada com uma beleza quase inexistente de tão invisível que é nesses dias corridos de hoje. Eu me deixo levar pelos devaneios que surgem à cabeça e sei que isso te assusta, como se eu pudesse sair de mim a qualquer momento - o que não deixa de ser algo provável.
Sentada na cadeira de balanço, eu viajo até o mais profundo dos mares, e permito-me voar num céu mais azul, onde as nuvens falam, sussurram, cantam baixinho com suas vozes amarelo-ventadas de sino. E vou além, cultivando uma forma não conhecida de flor e colhendo frutos estranhos num campo imaginário enquanto algumas poucas palavras suas ecoam e quicam dentro da minha mente alheia ao mundo. Sabe, eu não gosto da idéia de não conseguir prestar a devida atenção às suas palavras, mas é só porque eu gosto do som da sua voz. Gosto da maneira como o rouco da sua garganta soa bem em dias de chuva. Mas é que, parando para pensar, há muito mais beleza naquilo que o olhos vêem quando vagam sem rumo, do que naquilo que nos focamos e fixamos o olhar para tentar encontrar algum tipo de razão. Há beleza na irracionalidade e é exatamente quando estamos inconscientes do ambiente ao redor, que vemos a verdadeira cor nele. Sem máscaras e sem disfarces, é só quando a insanidade assume o lugar da lucidez que conseguimos enxergar aquilo que a realidade esconde, por ser tão invejável e ofuscante; tão inigualável que faz com que o real se torne sem graça.
E eu gosto de ser assim, alucinada com o que está por baixo dos panos. Me faz feliz que eu consiga ir até o sol, tocar a lua e deixar esse corpo e essa matéria toda que me incomodam sem ter que tirar literalmente meus pés do chão. Mesmo sabendo que isso te intriga, te choca, te assusta e te deprime, eu gosto de não estar presa dentro de mim mesma. Tenho consciencia da maneira como seus olhos tornam-se pontos de interrogação quando me vêem despreender-me do humano e conectar a freqüência única e perturbadoramente bela do sentir, mas não posso evitar; não quero evitar.
Como naquela vez em que começou a chover e eu me inclinei em direção às gotas, fechando os olhos e respirando suavemente, derretendo conforme a àgua, saboreando o cheiro da terra molhada, o gosto úmido da grama verdinha e você, sempre racional demais para ver a aura cinza-branco-perolada que a chuva exala, perguntou se eu era mesmo deste planeta. É, talvez eu tenha sido apenas um produto acidental da matéria; produto esse que não foi feito para o fixo, o explicável. Produto que não é tocável, porque é ligado à cor, ao som; ligado à tudo aquilo que não é visível, comprovado racionalmente, palpável.
E agora sou eu quem pergunto porquê você, com essa racionalidade toda, não vê que o mais bonito está no além do que o mundo nos faz acreditar. Há vida do outro lado desse plano gasto e apagado, menino. Eu já não te disse que você tem que aguçar seus sentidos? Pode me chamar de louca, anormal ou estranha, porque eu não ligo. Prefiro essa minha loucura do que essa sua sanidade forçada que te cega enquanto você pensa estar evoluindo por ser mais racional. Essa lucidez que só te prende ao chão me causa repulsa.
E mesmo que isso implique em uma anormalidade, eu gosto do cheiro do por-do-sol e do gosto da pedra molhada. E tenho pena que você, como todos os outros, só veja o que está fácil de enxergar, bem em frente aos seus olhos. Tenho pena porque, pessoas assim, estarão sempre algemadas a si mesmas, impermeáveis à luz, imunes à verdadeira vida; à real beleza.
Enquanto eu, bom, sempre terei aquela minha porção de alegria bem escondida nos bolsos graças ao que vocês chamam de loucura.