quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Teoria de um desconhecido

Lá estava ela de novo, sentada no chão de um banheiro qualquer, chorando um choro qualquer. Não era sua primeira vez; já era um costume.
Ela tinha amigos, tinha sim. Mas sentia-se tão insignificante e com problemas tão banais que achava que seria ridículo chorar na frente de outras pessoas. Pra que contaria seus problemas, se o mundo já estava cheio deles? Cheio de problemas mais sérios e mais importantes que os seus? Qual seria a utilidade disso?
Alguns minutos se passaram até ela voltar a si, enxugar as lágrimas e abrir a porta. Porem havia alguém ali; alguém parado do lado de fora do banheiro; alguém que provavelmente escutara os seus soluçoes escondidos.
- O que a faz chorar, menina? - o estranho perguntou baixinho.
- Nada. - ela respondeu perguntando-se a mesma coisa.
- Ah, eu sei. Nada. Mas você pode me contar por que o nada te faz chorar, não é?
- E adiantaria?
- Só vamos descobrir se adiantaria, se você me contar o que está se passando. Eu conheço esse seu jeito, já lidei com pessoas assim antes... Todos pensam que parecerão fracos ao derramar lágrimas que julgam sem importancia.
- Eu não sou fraca.! - ela retrucou, quase indignada com a quase ofensa.
- Não digo que você seja. Mas ok, façamos um trato então: Você me conta por que estava chorando, e eu, como sou apenas um desconhecido para você, finjo que entendo tudo e depois desapareço e você apenas finge que nada a aconteceu. Esta bem assim?

Então ela contou. Contou tudo, desde o começo. Tudo que era tão insignificante e tão doloroso. Contou tudo e mais um pouco. Quando terminou, deixou-se cair sentada no chão, esperando a reação dele; esperando que ele dissesse tudo aquilo que ela detestava ouvir " Isso tudo vai passar", " Não é bem assim".
Mas não. Ele apenas assentiu e foi-se. Caminhou em direção ao nada, sem trocar nenhum olhar; sem pronunciar nenhuma palavra. Foi-se.
- Ei, você não vai dizer nada? - gritou ela, espantada.
- Não. Nosso trato era esse: você me contava tudo e eu simplemsnete partiria. Até mesmo por que você não aceitaria qualquer conselho meu. Você é forte, e pode lidar com isso sozinha, não é?
- É. Mas você poderia reagir.. quero dizer..falar alguma coisa. - ela não daria o braço a torcer.
- Só se você quisesse ouvir.
- Ok. Vamos supor que eu seja fraca e não possa lidar com tudo isso sozinha. O que você diria?
- Então eu posso contar a minha teoria?
- Teoria?

Chegou então a vez dele falar. Contou a ela tudo que tinha que contar.
- A nossa existência se resume a uma queda de braço, menina. Imagine como se fosse você de um lado e a vida do outro. Vocês duas se apertam com toda a força que têm. Ora uma está por cima, ora outra está por cima. Porem, conforme os dias vão passando a vida vai ficando mais forte, os problemas começam a ajudá-la a te derrubar e você, já cansada, está quase desistindo. É quando seus dedos começam a atrofiar, seus músculos pesam, seus ossos já exaustos começam a tremer; quando você já nã pode mais suportar.
É aí que chega a hora de pedir um tempo. Você não irá resistir muito mais se não se der uma trégua. É nesse momento que você solta da mão do adversário; que você relaxa os músculos, alonga os dedos, descansa os ossos. E não adianta, porque você precisa desse tempo para descansar. No seu caso, você precisa tirar um dia para chorar, para gritar; precisa tirar um dia inteiro não só para ficar triste, mas para atingir o auge de sua tristeza. Ficar triste por tudo e por nada, se afundar nas suas mágoas. Porque se você não colocar tudo para fora, isso ficará guardado e virá a tona novamente. Ao contrário dessas besteiras que os outros dizem, você tem mesmo que se afogar em todos os seus problemas, chorar por todos eles.
Sabe, as pessoas costumam dizer umas as outras: "Vamos sair para você esquecer isso!", " Não fica assim não, deixa pra lá". Todo mundo fica tentando te colocar para cima, mas ninguém entende que esse é o seu dia de trégua, é o seu dia de colocar para fora tudo o que você tentou esquecer durante a queda de braço com a vida, e a ultima coisa que você deve fazer nesse dia é 'deixa isso pra lá', ou 'esquecer isso'.
Entenda, menina. Ninguém é feito de ferro. Até mesmo num jogo de futebol, existe um intervalo entre dois tempos. E se você não se livrar de todas as suas preocupações, quando voltar para o segundo tempo, você estará mais fraca do que antes. Pense nisso! Você precisa de um dia, dois ou até três para se recuperar. Para resgatar suas forças e partir para o ataque. O que há de errado nisso? você tem que de aceitar que é impossível guardar tudo para si e não vale a pena chorar escondido nos cantos. Não digo que você precise contar a alguém, mas coloque para fora. Grite alto para o mundo todo ouvir, se quiser. Chore se tiver vontade. Não se esqueça nunca que foi você quem pediu a trégua, e é você quem tem de renovar as forças.

Ela não disse nada por um longo tempo. Ele também não. Apenas se olharam como se tentassem entender o motivo de estarem trocando confidências e conselhos. E então, ele apenas sorriu, segurou nas mãos dela; mãos frias e molhadas de lágrimas.. e beijou-a na testa. Um beijo de 'se cuida', um beijo de 'adeus'. E partiu. Simplesmente partiu e quando ela deu por si já estava sozinha novamente, mas pronta para a corrida de sua vida, para o segundo tempo da partida; pronta para acrescentar na sua vida essa misteriosa teoria. Essa teoria de um desconhecido.

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