segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Por trás do vidro da janela

Por trás do vidro da janela, eu vejo as árvores mais verdes.
Eu vejo o asfalto molhando brilhando.
Eu vejo o reflexo do meu olho.
Por trás do vidro da janela, eu vejo os pingos de chuva gotejando como lágrimas correndo pela avenida e escorrendo pelo vidro.
Lágrimas e chuva. Lágrimas de chuva.E elas passam por mim, apostando corrida em suas jornadas fáceis.
Por trás do vidro da janela, eu vejo o sonho; vejo a realidade.
Por trás do vidro da janela, eu vejo a palma da minha mão, eu vejo a divisão entre a razão e a escolha. Eu me divido entre o ter e o não ser.
Por trás do vidro da janela, eu me colido entre a certeza da realidade e a magia da fantasia.
Eu me perco em ilusões desnecessárias, em idéias loucas enquanto vou deixando a rua para trás junto com tudo que ficou.

Por trás do vidro da janela,

eu vou me deixando para trás, e assumindo o meu 'piloto automático'.

E agora?

Eu nunca soube desenhar estrela, riscar o contorno daquelas pontas incertas. Nunca consegui fazer certo, ora as pontas ficavam abertas demais, ora fechadas demais.
E como um criança teimosa, eu sempre tentei. Tentei com régua, com lápis e com caneta. Não adiantou, mas tudo bem.. porque eu ainda sabia desenhar coração. Aqueles corações gordinhos e carismáticos, não tinha mistério nenhum.. era fácil como respirar, eu simplesmente soltava os meus dedos e eles encontravam os contornos sozinhos.
Mas aí eu me perdi. O tempo me deixou aqui, e eu nem sei como voltar.
E agora, o que eu faço? Se meus dedos perderam o encanto; Se meu sorriso perdeu a inocência.
E agora que os meus bonecos de palito ficaram tortos? E as minhas flores ficaram com pétalas desiguais?

O que eu faço agora, já que nem mesmo os corações me perdoaram?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A casa

A casa não era bonita. Tinha um certo ar antigo e formava uma perfeito quadrado com suas paredes angulosas. A vista de fora também não era agradável, não o suficiente; as pessoas deslumbravam-se com seu tamanho e talvez por atingir uma certa imponência à primeira vista.
A altura dos portões que a cercavam fazia com que esta parecesse sombria, e as cores em branco-sujo deixavam-na triste, gélida, sem vida.
Contudo, era uma casa pomposa; tinha lá seus encantos, seus mistérios; tinha uma certa beleza.
Mas isso definitivamente não era suficiente para torná-la mais receptível, ainda mais agora que havia um gato sentado imóvel e fixo diante da entrada. Seus olhos de um tom amarelo berrante, daquele tipo que não se encara.
Isso não era novidade, já que ultimamente o animal tinha estado maior parte de seu tempo ali, focalizando o nada, assustando as velhas fofoqueiras dos arredores da casa.
Ainda posso sentir a nostalgia quando passo pela rua. Lembro-me da turma do bairro, que costumava apostar bolinhas de gude para ver quem tinha coragem de se quer tocar a campainha. Quanta bobagem!
E até hoje eu o vejo, aquele gato intacto; frio e calculista. Com seu pêlo liso de um preto fosco com um branco sem vida, combinando com a residência sombria, triste e gélida que esta sempre fora.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um estranho qualquer

É incrível a capacidade que algumas pessoas têm de nos fazer sorrir apenas com besteiras e papos desconexos.
É incrível como uma pessoa qualquer, contando seus casos e acasos em sua profissão, pode nos fazer feliz.
É incrível como um dia horrível, com lágrimas contidas, pode se tornar divertido apenas com um desconhecido e com a maneira como ele ri para você.. ou de você.
É incrível como uma corrida para o dentista pode fazer do seu dia, um dia mais feliz.

Sabe, são poucas as pessoas que me ganham assim, fácil. E ele tinha pouco mais de meia idade, com marcas de expressão e roupas surradas.
E o mais incrível é que ele é simplesmente um taxista, desses que você chama quando vai ao supermercado. Ele, justo ele, com seu taxímetro rodando. Ele, logo ele, nos fez perceber que a vida pode ser melhor. Aquele que nos fez notar que no fim do dia tudo fica bem, que um sorriso pode desarmar um coração.
Mas ele é apenas um taxista qualquer sem nada demais a oferecer, sem nada além de um sorriso e um riso incontido de palavras divertidas. Um estranho desconhecido, que não causou nada além de risadas num dia sem expectativas. Um senhor que apenas disse um "boa noite" divertido e contou estórias bizarras.. que apenas sorriu com os olhos e nos tocou com o coração bom. Mas isso bastou. Isso basta.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Teoria de um desconhecido

Lá estava ela de novo, sentada no chão de um banheiro qualquer, chorando um choro qualquer. Não era sua primeira vez; já era um costume.
Ela tinha amigos, tinha sim. Mas sentia-se tão insignificante e com problemas tão banais que achava que seria ridículo chorar na frente de outras pessoas. Pra que contaria seus problemas, se o mundo já estava cheio deles? Cheio de problemas mais sérios e mais importantes que os seus? Qual seria a utilidade disso?
Alguns minutos se passaram até ela voltar a si, enxugar as lágrimas e abrir a porta. Porem havia alguém ali; alguém parado do lado de fora do banheiro; alguém que provavelmente escutara os seus soluçoes escondidos.
- O que a faz chorar, menina? - o estranho perguntou baixinho.
- Nada. - ela respondeu perguntando-se a mesma coisa.
- Ah, eu sei. Nada. Mas você pode me contar por que o nada te faz chorar, não é?
- E adiantaria?
- Só vamos descobrir se adiantaria, se você me contar o que está se passando. Eu conheço esse seu jeito, já lidei com pessoas assim antes... Todos pensam que parecerão fracos ao derramar lágrimas que julgam sem importancia.
- Eu não sou fraca.! - ela retrucou, quase indignada com a quase ofensa.
- Não digo que você seja. Mas ok, façamos um trato então: Você me conta por que estava chorando, e eu, como sou apenas um desconhecido para você, finjo que entendo tudo e depois desapareço e você apenas finge que nada a aconteceu. Esta bem assim?

Então ela contou. Contou tudo, desde o começo. Tudo que era tão insignificante e tão doloroso. Contou tudo e mais um pouco. Quando terminou, deixou-se cair sentada no chão, esperando a reação dele; esperando que ele dissesse tudo aquilo que ela detestava ouvir " Isso tudo vai passar", " Não é bem assim".
Mas não. Ele apenas assentiu e foi-se. Caminhou em direção ao nada, sem trocar nenhum olhar; sem pronunciar nenhuma palavra. Foi-se.
- Ei, você não vai dizer nada? - gritou ela, espantada.
- Não. Nosso trato era esse: você me contava tudo e eu simplemsnete partiria. Até mesmo por que você não aceitaria qualquer conselho meu. Você é forte, e pode lidar com isso sozinha, não é?
- É. Mas você poderia reagir.. quero dizer..falar alguma coisa. - ela não daria o braço a torcer.
- Só se você quisesse ouvir.
- Ok. Vamos supor que eu seja fraca e não possa lidar com tudo isso sozinha. O que você diria?
- Então eu posso contar a minha teoria?
- Teoria?

Chegou então a vez dele falar. Contou a ela tudo que tinha que contar.
- A nossa existência se resume a uma queda de braço, menina. Imagine como se fosse você de um lado e a vida do outro. Vocês duas se apertam com toda a força que têm. Ora uma está por cima, ora outra está por cima. Porem, conforme os dias vão passando a vida vai ficando mais forte, os problemas começam a ajudá-la a te derrubar e você, já cansada, está quase desistindo. É quando seus dedos começam a atrofiar, seus músculos pesam, seus ossos já exaustos começam a tremer; quando você já nã pode mais suportar.
É aí que chega a hora de pedir um tempo. Você não irá resistir muito mais se não se der uma trégua. É nesse momento que você solta da mão do adversário; que você relaxa os músculos, alonga os dedos, descansa os ossos. E não adianta, porque você precisa desse tempo para descansar. No seu caso, você precisa tirar um dia para chorar, para gritar; precisa tirar um dia inteiro não só para ficar triste, mas para atingir o auge de sua tristeza. Ficar triste por tudo e por nada, se afundar nas suas mágoas. Porque se você não colocar tudo para fora, isso ficará guardado e virá a tona novamente. Ao contrário dessas besteiras que os outros dizem, você tem mesmo que se afogar em todos os seus problemas, chorar por todos eles.
Sabe, as pessoas costumam dizer umas as outras: "Vamos sair para você esquecer isso!", " Não fica assim não, deixa pra lá". Todo mundo fica tentando te colocar para cima, mas ninguém entende que esse é o seu dia de trégua, é o seu dia de colocar para fora tudo o que você tentou esquecer durante a queda de braço com a vida, e a ultima coisa que você deve fazer nesse dia é 'deixa isso pra lá', ou 'esquecer isso'.
Entenda, menina. Ninguém é feito de ferro. Até mesmo num jogo de futebol, existe um intervalo entre dois tempos. E se você não se livrar de todas as suas preocupações, quando voltar para o segundo tempo, você estará mais fraca do que antes. Pense nisso! Você precisa de um dia, dois ou até três para se recuperar. Para resgatar suas forças e partir para o ataque. O que há de errado nisso? você tem que de aceitar que é impossível guardar tudo para si e não vale a pena chorar escondido nos cantos. Não digo que você precise contar a alguém, mas coloque para fora. Grite alto para o mundo todo ouvir, se quiser. Chore se tiver vontade. Não se esqueça nunca que foi você quem pediu a trégua, e é você quem tem de renovar as forças.

Ela não disse nada por um longo tempo. Ele também não. Apenas se olharam como se tentassem entender o motivo de estarem trocando confidências e conselhos. E então, ele apenas sorriu, segurou nas mãos dela; mãos frias e molhadas de lágrimas.. e beijou-a na testa. Um beijo de 'se cuida', um beijo de 'adeus'. E partiu. Simplesmente partiu e quando ela deu por si já estava sozinha novamente, mas pronta para a corrida de sua vida, para o segundo tempo da partida; pronta para acrescentar na sua vida essa misteriosa teoria. Essa teoria de um desconhecido.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Hoje eu quero escrever. Escrever tudo, nada e só. Escrever qualquer coisa que me vier à cabeça.
Escrever apenas com palavras bonitas, doces e salgadas.
Escrever um sorriso, uma lágrima, um dia de sol. Escrever um jardim florido, uma cama quentinha...
Descrever sentimentos, colorir paisagens, brincar com a lama, a chuva, o tempo.
Hoje eu quero dizer.. dizer coisas sem sentido, contar piada, falar em silêncio.
Porque hoje é um dia bonito, umdia comum que eu quero memorizar.
Guardar um pedacinho de nuvem, uma gotinha de chuva, uma pétala de flor, uma lasquinha do céu.